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A VOCAÇÃO LITERÁRIA DE FREI BETTO

Transmito na íntegra a Entrevista concedida por Frei Beto ao Jornalista e Crítico Literário Manuel da Costa Pinto da Revista Cult, falando sobre literatura, religião, contexto político, atuação do Lula e do PT. Altíssimo nível! Vale a pena conferir!

Conhecido por sua atuação política contra o regime militar, o autor de “Batismo de sangue” fala de literatura, política e critica os desvios de rota do PT

Manuel da Costa Pinto

FREI BETOPrestes a completar 71 anos e com sessenta livros publicados, Frei Betto descobriu o amor pela escrita muito cedo, quando suas redações escolares (ou composições, como se dizia à época) fizeram os professores identificarem seu talento – mas só se tornou um autor “graças aos generais brasileiros”.
Integrante da Ação Católica, grupo que se opunha ao regime militar, Carlos Alberto Libânio Christo foi preso duas vezes: em 1964 e no período 1969-1973, quando estava no Rio Grande do Sul e participava de uma rede clandestina formada pelos dominicanos para apoiar os insurgentes.
Dessa segunda experiência, resultaram dois livros de cartas, atualmente reunidas num único volume intitulado Cartas da prisão. Começava a se desenhar aí o perfil do religioso e militante que publicou vários títulos de caráter memorialístico – entre eles, Batismo de sangue, que narra os episódios que levaram ao assassinato do ativista Carlos Marighella e que daria origem ao filme homônimo de Helvécio Ratton.
O cruzamento de atuação política com religião aproximaram Frei Betto do cristianismo progressista dos dominicanos e da teologia da libertação, mas jamais sufocaram sua verdadeira vocação – a literatura. Vocação que foi alimentada pela mãe, Maria Stella Libânio Christo, cristã progressista e autora de livros sobre culinária (entre eles, o clássico Fogão de lenha), e pelo pai, Antônio Carlos Vieira Christo, advogado, cronista e ferrenho anticlerical, que chorou copiosamente quando soube que o filho ia ingressar na ordem dos dominicanos, mas que mais tarde se tornaria “fã da teologia da libertação, de D. Pedro Casaldáliga”, segundo Frei Betto.
Na entrevista a seguir, concedida no convento dos dominicanos, no bairro paulistano de Perdizes, o autor de Minas do ouro fala da preocupação de dissociar a ficção das questões ideológicas – que continuaram presentes em suas intervenções públicas, levando-o a participar do programa Fome Zero, durante o governo Lula, mas não o impedindo de ser um crítico dos desvios de rota do PT e da timidez da esquerda.

CULT – Quando a literatura e a escrita aparecem na sua vida?
FREI BETTO Comecei a escrever muito cedo. Sempre conto que, aos oito anos, quando estava no grupo escolar, minha professora, Dercy Passos, entrou na sala com um maço de composições (belo nome que se usava então para as redações) e, ao fazer a correção, deixou a minha por último. No fim, disse à classe: “Vocês deveriam fazer como Carlos Alberto; ele escreve as próprias composições, não pede para os pais fazerem por ele”. Aí meu ego bateu lá em cima… E mais tarde, no primeiro ano de ginásio, no Colégio Marista, meu professor de português me chamou e disse: “Você só não será escritor se não quiser”. Só que, para mim, ser escritor era coisa de outro mundo, para gente muito erudita. Foi daí que me meti no jornalismo. Comecei, em 1966, por onde muitos almejavam concluir carreira: a revistaRealidade.
Mas só me tornei autor graças aos generais brasileiros, ao escrever Cartas da prisão – que foram publicadas primeiramente no exterior [com outros títulos e em volumes separados], primeiro na Itália, em 1971, em seguida na França e em outros países. Depois, em 1977, saíram no Brasil.

CULT A experiência política marcou muito sua literatura. Em que momento surge uma ficção “pura”, sem essa preocupação?
FREI BETTO A militância me dificultou muito na ficção, que é o que mais gosto de fazer. Tive de lutar para me desfazer dessa camisa de força. Meu primeiro romance foi O dia de Ângelo, onde ainda havia essa camisa de força, tinha um pouco das minhas experiências em celas solitárias. Depois vieram Hotel Brasil e Minas do ouro – em que me soltei mais.

CULT Essa mudança coincide com o período posterior à queda do muro de Berlim, quando as grandes questões ideológicas declinam. É só depois disso, por exemplo, que você escreve Hotel Brasil, um romance policial. Há alguma relação?
FREI BETTO Até onde consigo enxergar conscientemente, queria enfrentar o desafio de fazer um policial – duplo desafio de criar a ficção e o mistério, conduzir o leitor até o fim sem que ele descubra quem é o assassino. Foi isso que passou na minha cabeça. Não tive a consciência de que, com a crise das ideologias, iria fazer literatura “pura”.
Reservo 120 dias do ano só para escrever. Não são dias seguidos, mas são sagrados. E muitas vezes estou fazendo ficção e fico árido; daí, inevitavelmente, leio Machado de Assis. Ele me reaquece, provoca minha inventividade. Fui um leitor voraz de Jorge Amado e Erico Verissimo, de quem era amigo e que me ajudou a montar uma biblioteca na penitenciária em que estive preso – e fui muito marcado pela literatura francesa, Camus, o Sartre do teatro e de A náusea.

CULT Falando em Jorge Amado e Sartre, que eram escritores muito engajados, como você avalia a esquerda de hoje?
FREI BETTO A esquerda hoje é uma raridade. Conheci muito intimamente o mundo socialista, na Nicarágua, depois em Cuba, onde durante dez anos, entre 1981 e 1991, fiz um trabalho institucional de reaproximação entre Igreja e Estado. Com a queda do muro de Berlim, a esquerda acadêmica, que nunca teve um trabalho popular, foi cooptada pelo neoliberalismo, a ponto de hoje acontecer uma enorme crise econômica na Europa Ocidental e não haver qualquer proposta de esquerda.
O principal problema filosófico hoje é a desistoricização do tempo. Isso se reflete na esquerda mundial, que está perdendo o horizonte histórico (não tem utopia, não tem projeto), e também no plano pessoal – a dificuldade de se ter projeto pessoal na vida profissional, artística, afetiva (todos ficam vulneráveis a qualquer dificuldade na relação conjugal).
Isso está nos levando à falta de esperança, e faz com que a discussão política desça do racional ao emocional. Sempre participei de discussões políticas e nunca vi nível de animosidade tão forte como agora, porque se apagou o horizonte histórico.
Não é fácil ser de esquerda em um mundo tão sedutor quanto o do capitalismo neoliberal. Daí o problema do PT, que foi perdendo o horizonte histórico de um projeto Brasil e trocando-o pelo horizonte imediato de um projeto de poder.

CULT Quando percebeu que o PT abandonou seu projeto inicial?
FREI BETTO Isso desaparece na campanha de 2002, quando o PT faz a opção de assegurar a governabilidade pelo mercado e pelo Congresso – daí as alianças e a “Carta aos Brasileiros”, que na verdade é a “carta aos banqueiros”. Ali, o PT abandona sua matéria-prima, que são os movimentos sociais pelos quais deveria ter assegurado a governabilidade, como fez Evo Morales na Bolívia, que não tinha apoio no congresso, se apoiou nos movimentos sociais e, através deles, conseguiu mudar o perfil do congresso. Hoje, ele tem apoio dos dois, é o presidente mais consolidado de toda essa safra progressista. O PT optou pelo mercado e pelo Congresso. Agora, está refém dos dois e pagando um preço muito alto. Tanto que chamou um homem do mercado para ver se melhora a economia e entregou a parte política para o PMDB.

CULT Se você já havia se decepcionado desde a “Carta aos Brasileiros”, por que participou do programa Fome Zero, do governo Lula?
FREI BETTO Achei que a “Carta aos Brasileiros” fosse uma coisa tática, que, uma vez eleito, o PT faria reformas estruturais, tributária, agrária, algum tipo de reforma. Estava altamente entusiasmado. Sempre fui convidado para trabalhar em administração, mas nunca quis trabalhar nem para a iniciativa privada nem para governos. Gosto dessa vida cigana, solta. Quando Lula foi eleito e me convidou para o Fome Zero, achei que trabalhar com os mais pobres entre os pobres – os famintos – se enquadrava em minha perspectiva pastoral e tive todo apoio de meus superiores dominicanos e até de Roma.
Fiquei dois anos e, de repente, o governo matou o Fome Zero para substituí-lo pelo Bolsa Família. Tive então a certeza de que essa opção contrariava a tudo aquilo que o PT vinha pregando desde a fundação. O Fome Zero era um programa emancipador, o Bolsa Família é compensatório. O Fome Zero ia mexer na estrutura do país e por isso foi boicotado pelos prefeitos. Era coordenado por comitês gestores municipais, não passava pelos prefeitos, não havia como usar os recursos para fazer jogo eleitoreiro, então os prefeitos se rebelaram, pressionaram a Casa Civil, que pressionou Lula. No fim, Lula cedeu e eu caí fora.

CULT Você chegou a escrever que o PT faz “populismo cosmético”.
FREI BETTO O erro do Lula foi ter facilitado o acesso do povo a bens pessoais, e não a bens sociais – o contrário do que fez a Europa no começo do século 20, que primeiro deu acesso a educação, moradia, transporte e saúde, para então as pessoas chegarem aos bens pessoais. Aqui, não. Você vai a uma favela e as pessoas têm TV a cores, fogão, geladeira, microondas (graças à desoneração da linha branca), celular, computador e até um carrinho no pé do morro, mas estão morando na favela, não têm saneamento, educação de qualidade. É um governo que fez a inclusão econômica na base do consumismo e não fez inclusão política. As pessoas estavam consumindo, o dinheiro rolando e a inflação sob controle, mas não se criou sustentabilidade para isso. Agora a farra acabou, está na hora de pagar a conta e chama-se o Joaquim Levy [ministro da Fazenda].

CULT Os católicos de esquerda foram preteridos pelo PT por conta dos compromissos com os evangélicos?
FREI BETTO Lula sempre reconheceu que as Comunidades Eclesiais de Base (CEBs) tiveram mais importância na capilaridade do PT pelo território brasileiro do que o sindicalismo. Nos anos 80, havia núcleos do PT no fundo do Maranhão ou do Amazonas graças a essas comunidades. Enquanto foram atuantes, não havia evasão de fiéis para as igrejas pentecostais. Foi o fato de o Pontificado de João Paulo 2º reprimir as CEBs que fez com que os bispos já não as patrocinassem e que muitas pessoas bandeassem para as igrejas evangélicas.
Nas CEBs, o pobre se sente à vontade. Mas numa igreja, não. Você vai à paróquia e só tem classe média, tem a patroa, tudo é centrado no padre – não há convivência como numa comunidade. Ainda existem as CEBs, mas não com aquela força de antes.
As CEBs produziram muitos militantes, como Erundina, Vicentinho, Chico Alencar. As figuras éticas [do PT] têm uma tradição de igreja. O PT é formado por três segmentos: o pessoal da Igreja, o do sindicalismo e o da esquerda – remanescentes da esquerda da época da ditadura (Zé Dirceu, Paulo Vannuchi etc.). O pessoal das CEBs, por formação pessoal, nunca teve muita gana de poder. Aos poucos, ficaram em segundo plano.
Por outro lado, os evangélicos estão armando uma grande estratégia de domínio da política brasileira, que se resume ao seguinte: “Nossos princípios religiosos exigem determinadas atitudes morais e nós só podemos impor isso de duas maneiras: convertendo toda a nação (o que é impossível) ou tendo o poder de fazer a lei civil obrigar as pessoas a agirem como nós queremos (já que a lei é universal)”. Se você tem a caneta, você transforma seu princípio religioso em lei.

CULT Você vê sinceridade religiosa nessas posturas ou é manipulação de sentimentos reativos dos fiéis?
FREI BETTO As duas coisas. Há os fundamentalistas e há os que são meramente oportunistas. Estes perceberam que aquilo é um manancial de votos. O pastor diz claramente: “o candidato é esse”. Isso não acontece na Igreja Católica – aconteceu lá nos anos 30, com a LEC (Liga Eleitoral Católica), em que o bispo dizia “isso sim, isso não”. Nas igrejas evangélicas, há hoje um direcionamento muito explícito. Muitos políticos estão ali por fundamentalismo, muitos por oportunismo.

CULT Qual sua posição sobre a liberação do aborto?
FREI BETTO Defendo o modelo francês. Tudo deve ser feito pelo Estado para convencer a mulher a não abortar, mas a decisão final é dela. Esse modelo, em primeiro lugar, fez com que acabasse o aborto clandestino e, portanto, diminuísse o índice de mortes. Em segundo lugar, o fato de o médico e o ministro da confissão religiosa da mulher induzirem-na a não abortar aumentou o índice de mulheres que foram à procura do aborto, mas decidiram assumir o filho. Eu mesmo tenho experiência pessoal disso. Já recebi vários adolescentes nessa situação e sempre disse o seguinte: “Tenha o filho e deixe aqui que eu crio, pode deixar na porta do convento”. Nunca ninguém trouxe e hoje tenho uma porção de apadrinhados… Tenho uma posição aberta, acho que aborto em última instância é um direito da mulher e não pode ser criminalizado de jeito nenhum.

CULT Mas isso não vai contra os dogmas da Igreja?
FREI BETTO Não é dogma. Se fosse, a Igreja também teria de ser contra a guerra, não haveria capelão militar e, nos EUA, seria contra pena de morte. Na verdade, há uma ambiguidade na teologia. São Tomás de Aquino aceitava o aborto até quarenta dias após a fecundação, porque ainda não haveria ali, propriamente, uma pessoa – e ele é a doutrina oficial da Igreja. A discussão teológica não está fechada. Tanto que escrevi um texto sobre isso em 1988, que circulou na CNBB, e nunca recebi advertência. Aliás, nesse texto digo que “se homem parisse, aborto seria um sacramento”…

CULT E em relação ao casamento homossexual?
FREI BETTO O fundamento da relação de qualquer ser humano é o amor – e, se há amor, há Deus. O tema da sexualidade e da família está congelado na Igreja Católica desde o século 16. Tentou-se várias vezes abrir esse tema nos concílios, mas ele foi podado. Acho que o papa Francisco, muito inteligentemente, está conseguindo quebrar esse preconceito. Em vez de falar “vamos aceitar o casamento homoafetivo”, ele fala “esses casais têm filhos, as crianças não têm direito à catequese?”. Com isso, já abriu o caminho. Ele acaba de receber no Vaticano um transexual espanhol que foi discriminado pelos bispos e que agora vai casar. Foi um escândalo na Espanha, tanto que dizem que a direita de lá reza assim para o papa: “Senhor, iluminai-o ou eliminai-o”.

CULT Outro tema atual que divide a opinião pública é a redução da maioridade penal. Qual sua posição?
FREI BETTO Criminalizar a juventude é uma maneira cômoda de se omitir naquilo que deveria ser feito para evitar a criminalidade juvenil: dar educação. É o caso das UPPs do Rio: a polícia sobe à favela, mas não sobem escola, teatro, cinema, esporte, música – e o traficante não quer que seu filho seja bandido, quer que ele seja doutor. Uma geração já poderia ter sido salva no Rio se os equipamentos sociais também tivessem subido às favelas.

CULT Como militante e ex-preso político, como vê o clamor pelo impeachment da presidente e pela volta da ditadura?
FREI BETTO Não me preocupam ameaças de impeachment ou golpe. Não há caldo de cultura. Os militares nem saem de farda na rua. Militar, no Brasil, antes andava orgulhosamente de farda, até para arrumar namorada…
O que me preocupa é a despolitização da juventude brasileira. Os segmentos de esquerda deveriam estar preocupados com a politização, como houve imensamente nos anos 70 e 80. Não há mais formação de consciência crítica – e aí o pessoal vai no emocional, no oba-oba da volta dos militares, sem ter ideia do que foi a ditadura, que pode parecer que foi tranquila, mas é porque havia uma censura brutal. Estamos voltando a esse nível de desinformação, a esse horror à política.

Manuel da Costa Pinto é jornalista e crítico literário

Fonte : http://revistacult.uol.com.br/home/2015/05/a-vocacao-literaria-de-frei-betto/

O DIA DO TRABALHADOR

Dia-do-trabalhadorNo dia 1º de maio comemora-se o Dia do Trabalhador e não do trabalho, como muitos pensam. A data foi escolhida porque no dia 1º de maio de 1886 milhares de operários saíram às ruas de Chicago, nos Estados Unidos, para protestar contra as condições desumanas de trabalho agravadas com a revolução industrial. Nesta época, surgiu uma greve generalizada que reivindicava, entre outras melhorias, a redução na jornada de trabalho de quatorze para oito horas diárias e melhores condições de trabalho e salários. A paralisação durou dias e culminou na morte de vários operários.
CLTAlgumas questões importantes e provocativas merecem reflexão nesta marcante data. Talvez a mais urgente delas seja a questão relacionada à legislação trabalhista. A Consolidação das Leis do Trabalho CLT, que rege as relações de trabalho no Brasil, foi aprovada por Decreto em 1° de maio de 1943 por Getúlio Vargas e foi fortemente inspirada pela Carta del Lavoro do governo fascista de Benito Mussolini. Possui 944 artigos que legislam de forma rigorosamente detalhada sobre os mais variados temas, versando sobre identificação profissional, jornada do trabalho, salário mínimo, férias anuais, segurança e medicina do trabalho, proteção ao trabalho da mulher e do menor, previdência social e regulamentações de sindicatos das classes trabalhadoras e greves, entre outros. Creio que temos aí um sério problema a resolver.É impossível admitir que os princípios que regiam a relação capital-trabalho a 70 anos atrás continuem integralmente sendo válidos para os dias de hoje. O mundo mudou e muito; novas e profundas transformações tecnológicas surgiram, impactando fortemente as relações de trabalho. Inúmeras profissões desapareceram e outras surgiram, exigindo uma nova forma de regulamentação. O nível de instrução e conhecimento dos trabalhadores aumentou, adquirindo condições e abrindo espaço para reivindicar seus próprios direitos no ambiente de trabalho. A mídia, as ONG’s, os órgãos reguladores e a própria sociedade exercem uma pressão sobre o capital exigindo um tratamento mais humano e respeitável. Motivados pelo aumento da lucratividade ou mesmo por questões humanitárias, os empresários e grandes executivos repensam estrategicamente suas formas de administrar, optando por uma gestão mais participativa.
O fato é que, diante da obsolescência de certos regulamentos, muitas das vezes os empresários não tem como se furtar e acabam prejudicando o próprio trabalhador em nome da lei. A nossa legislação trabalhista é uma das mais rígidas do mundo! Alguns personagens do mundo do trabalho, preocupados com um retrocesso nos direitos conquistados pelos trabalhadores, em uma atitude conservadorista, defendem veementemente a manutenção da legislação como está. Nossos parlamentares, pelo que se apresenta, receosos de verem sua popularidade manchada discutindo tão polêmico assunto, preferem não encarar de frente a questão e vão protelando uma solução para o problema. E assim caminha a humanidade.
As leis foram feitas para tornar a convivência em sociedade mais harmoniosa para os homens, coerentemente com a realidade de cada época em que vivem. Quando perdem esta característica e começam até mesmo a dificultar, é sinal de que precisam ser mudadas. Reforma trabalhista não pode ser confundida com perda de direitos do trabalhador, mas sim entendida como adequação às realidades do mundo contemporâneo. Que a vetusta CLT não seja ignorada de forma radical e disruptiva, mas analisada de forma consciente e ajustada à modernidade, contribuindo de forma efetiva para a paz no mundo do trabalho. Este, de fato, seria um bom presente para o trabalhador!
No mais, parabéns a todos nossos trabalhadores que, de sol a sol, heroicamente dão sua contribuição para o progresso do nosso País.
PARABÉNS DIA DO TRABALHADOR

ACHACADORES: VALE A PENA PENSAR E REPENSAR NA HORA DE VOTAR

Segundo o dicionário Caldas Aulete, achacador é aquele que constrange ou extorque dinheiro de alguém. Outro dicionário, o On-Line, conceitua o mesmo termo como ladrão e vigarista e autoridade que recebe dinheiro de gatunos. Neste caso, pergunta-se quem são os gatunos…
CID GOMESCiente do significado altamente depreciativo e das implicações por rotular alguém com este termo ao vivo e a cores, principalmente autoridades, o agora Ex-Ministro da Educação Cid Gomes chamou os Deputados da base aliada de achacadores, em uma palestra para estudantes da Universidade Federal do Pará, no dia 27/02/15. Em resposta, o Presidente da Câmara Eduardo Cunha chamou o Ministro (da Educação!) de “mal-educado”. Orientado pela Presidente da República a ir ao Congresso Nacional para pedir desculpa aos nobres Deputados, Cid Gomes foi e não só reforçou a acusação, mas ainda apontou o dedo para o Presidente da Câmara dizendo em alto e bom tom preferir ser chamado de mal-educado do que ser acusado de achaque, acusação que ele, o Presidente, é alvo em uma lista divulgada pela Procuradoria Geral do Estado. Logo depois, o Ministro abandonou o Congresso e entregou seu pedido de demissão para a Presidente da República. A Pátria Educadora perdeu seu Ministro mal-educado…
O ocorrido mais uma vez vem a demonstrar a grave crise de liderança que estamos vivendo em nosso Estado. Por um lado temos uma Presidente acossada e sem carisma que não consegue escolher de maneira adequada nem os seus liderados nem os seus aliados, O Ex-Ministro Cid Gomes ficou menos de três meses no cargo, o fogo amigo surge de todos os lados. Por outro lado, temos um grupo de políticos da base aliada sendo acusado de recebimento de propinas, em uma lista amplamente divulgada. Os Presidentes da Câmara e do Senado aparecem entre os acusados. Mediante tal fato, algumas hipóteses merecem ser analisadas.cunha e calheiros
Hipótese 1: Os Deputados da base aliada não são achacadores, o Ex-Ministro errou fundo no seu discurso inflamado. Neste caso, além de ser demitido do cargo, ele deveria ser punido por calúnia e difamação, de forma exemplar. Pena, conforme reza a lei: seis meses a dois anos de reclusão e multa para aprender a ter mais cuidado com o que fala.
Hipótese 2: Os deputados da base aliada são achacadores, o Ex-Ministro foi verdadeiro no seu discurso inflamado. Neste caso, além de apoiar seu Ministro, a Presidente deveria ter mudado radicalmente sua relação com os políticos aliados. E ainda mais, os achacadores deveriam ser punidos pelo ato de improbidade. Pena, conforme reza a lei: perda de bens obtidos ilicitamente, ressarcimento dos danos materiais, perda da função pública, 8 a 10 anos de suspensão de direitos políticos, multa até o triplo do aumento patrimonial e proibição de contratar com o poder público por dez anos.
Enfim, o Ex-Ministro é uma arauto da verdade ou um mentiroso cheio de vaidade? Os Deputados são íntegros representantes do povo ou achacadores, viciados na improbidade? Pelo visto esta é uma resposta que vai ficar para a posteridade. O fato é que o Ministro perdeu o cargo e não vai pagar pelo seu ato, os Deputados continuam nos seus cargos e não vão ser penalizados e a Presidente continua seu governo mancomunada com sua base aliada.
Ir para as ruas protestar é um caminho, mas a melhor saída é aprender a lição e pensar e repensar bastante na hora de votar. Daqui há quatro anos uma nova oportunidade vai chegar…
bandeira voto

EVOLUÇÃO MORAL NAS EMPRESAS

KOHLBERGLawrence Kohlberg (Nova York, 1927-1987), um famoso americano estudioso do comportamento humano, classificou o desenvolvimento moral dos seres humanos em seis grandes estágios, variando em uma escala de valores de “1” a “6”, sendo o primeiro estágio o menos evoluído e o sexto o mais evoluído. Sua teoria pode ser perfeitamente observada na rotina do dia a dia das empresas.
Segundo Kohlberg, no primeiro estágio estão as pessoas que pautam suas ações especificamente com foco na punição. O critério para agir ou não de determinada maneira se baseia na possibilidade de ser ou não punido e, se punido, no nível dessa punição.
No segundo estágio, impera o hedonismo. A preocupação fundamental é com os ganhos pessoais, mesmo que, para conseguir esse ganho, seja necessário participar de atos ilícitos.
No terceiro estágio estão os chamados “bons-garotos”. Nesse estágio as pessoas justificam seus atos ilícitos ou eticamente questionáveis, em função do contexto. Têm consciência das consequências de suas atitudes, mas entendem que, diante do contexto, é a melhor opção.
O quarto estágio é o estágio do chamado da lei e da ordem. Nesse estágio a pessoa se move com base na obediência à autoridade e à ordem social. O correto é cumprir seu dever na sociedade e preservar a ordem. Há uma obrigação e um dever em manter leis e regras.
No quinto estágio, o bem estar social é a máxima que rege o comportamento das pessoas. As leis são consideradas como contratos sociais em vez de um mandamento rígido. Aquelas que não promovem o bem-estar geral devem ser modificadas quando necessário para adequar-se ao bem máximo para o maior número de pessoas.
O sexto e último estágio é o da Consciência Universal. Os princípios em questão são os da igualdade dos seres humanos e o respeito profundo por sua dignidade como indivíduos, considerados como fins e não enquanto meios. Existe uma capacidade profunda de colocar-se no lugar do outro.16 O ponto de vista é da fraternidade universal, transcendendo grupos e sociedades particulares e se baseia numa ética válida para todos, da qual derivam arranjos e instituições concretas. É a ética dos grandes idealistas, heróis e mártires. Segundo Kohlberg, um número muito reduzido de pessoas se enquadra nesse estágio e, normalmente, têm vida curta. “Eu vim para que todos tenham vida e tenham vida plenamente”…
ÉTICAVejamos um exemplo hipotético de como esses princípios se aplicam na prática. Vamos trabalhar um caso que, infelizmente, tem se tornado muito comum dentro das empresas. Suponhamos que você seja assediado para receber propina no ambiente de trabalho. Se aceitar ou não aceitar simplesmente se pautando no fato de ser ou não punido ou no nível da punição que poderá receber, você poderá ser enquadrado no primeiro estágio. A pergunta a ser respondida aqui é “qual o risco que eu corro de ser punido e, se eu for punido, qual a intensidade da pena?”…
Se você tiver como critério de julgamento o quanto você irá ganhar com esse ato ilícito, poderá ser classificado no segundo nível. O critério aqui é responder à pergunta: “O quanto eu vou ganhar se eu aceitar a propina?”, não importando o nível da punição ou que com isso você esteja prejudicando os outros. Na verdade aqui “uma mão lava a outra”, ganham os dois, corrupto e corruptor.
Suponhamos que você esteja passando por um momento de dificuldade financeira e o fato de estar vivendo esse momento difícil justifique sua atitude de aceitar a propina. É o comportamento típico do terceiro estágio. “Normalmente eu não aceitaria propina, mas como eu estou passando por um momento muito difícil”…
No quarto estágio, você não aceitaria de maneira nenhuma, simplesmente por que isso é contra a lei: “Eu não aceito propina por que a lei não permite que eu faça isso”.
De forma diferente, você pensaria se estivesse enquadrado no quinto estágio. Nesse estágio o pensamento é: “eu não aceito propina de forma alguma, pois muito além da lei, meus valores não permitem que eu aceite. Se existem leis injustas, eu me movimento, busco adeptos do meu pensamento e luto veementemente contra elas”.
Finalmente, chegamos ao sexto e último estágio. Propina aqui não passa de forma alguma, nem em pensamento, pela sua forma de viver, agir e pensar. “Eu acredito profundamente na força da espiritualidade, da paz e do amor entre os homens e, incondicionalmente, vivo por isso e para isso. Se necessário for, dou minha vida por essa causa”.
Afinal, em qual nível de desenvolvimento moral você se enquadra? Em qual nível você acha que se enquadra a maioria do nosso povo brasileiro? Vale a pena refletir…
Se você quiser se aprofundar no assunto, faça contato conosco.

ÉTICA DA CONVICÇÃO E ÉTICA DA RESPONSABILIDADE

BIGAMIAO filósofo Max Weber, considerado o Pai da Sociologia, classificou o comportamento humano sob o enfoque da ética em dois grandes grupos: Ética da Convicção e Ética da Responsabilidade. As pessoas que pautam seu comportamento pela Ética da Convicção se baseiam em crenças e valores ou regulamentos rigidamente pré-estabelecidos e inegociáveis para a tomada de decisões. Vale o que está escrito ou sacramentado, caráter deontológico, o dever acima de tudo. As pessoas que pautam seu comportamento pela Ética da Responsabilidade se baseiam em uma análise do contexto. Nada é absoluto, tudo depende das circunstâncias, caráter teleológico. Dependendo do objetivo a ser alcançado, o meio a ser utilizado pode ser justificado, até mesmo o desrespeito à lei.

Uma notícia divulgada no Jornal estado de Minas neste final de semana (29/03/14) chamou-me a atenção e pode ser pedagógica para entender esta teoria e a sua profundidade, sob o enfoque da bigamia. Um homem de Vitória-ES casado, manteve um relacionamento extra-conjugal durante 20 anos com uma amante e com ela teve uma filha. Após sua morte, ambas as mulheres, a esposa e a amante reivindicaram a pensão junto ao INSS. A Justiça determinou que o INSS dividisse o benefício entre as duas. O INSS recorreu ao Supremo Tribunal Federal, alegando inconstitucionalidade, visto que a poligamia não é legalmente reconhecida no Brasil.

Maria Berenice Dias, Vice-Presidente do Instituto Brasileiro do Direito da Família,  se manifestou favorável à Sentença da Justiça. Alega que não se pode punir ‘mulheres que ficaram fora do mercado de trabalho, cuidaram de filhos e de repente se vêem sem condições de sobrevivência. Ao bater as portas do Judiciário não podem ouvir um solene “bem-feito”‘. Ética da Responsabilidade, é preciso analisar o contexto.

Rolf Madaleno, Diretor do mesmo Instituto,  portanto colega da Maria Berenice, por outro lado, se manifestou defendendo que somente a esposa legítima tem o direito, pautando-se no estabelecido na Constituição, afirmando “não há como negar, entretanto, que adotamos o princípio da monogamia, afirmando que “uma pessoa que se vê envolvida com um homem que já é casado ou mantém a relação, conhecendo a condição de casado ou correndo o risco de ele ser uma pessoa comprometida, é um custo que infelizmente a pessoa assume”. Ética da Convicção; vale o que está escrito, o respeito à lei acima de tudo.

Fica aí uma bela questão para debate e aprendizado: Como resolver o caso: Ética da Convicção ou Ética da Responsabilidade?

 

A BLITZ E O REPRESENTANTE DO SENADO

Recentemente, o ex-governador de Minas Gerais e atual representante da República no Senado, o ilustríssimo Sr. Aécio Neves, foi flagrado por uma blitz pelas madrugadas cariocas com a namorada, dirigindo seu veículo com a carteira de habilitação vencida e com suspeitas de estar embriagado! O senador – que teve o documento apreendido e foi multado em R$ 957,70 – não quis fazer o teste do bafômetro e recorreu à ajuda de um motorista de taxi habilitado para levá-los, a ele e à namorada, para casa. Além da multa, dirigir com a carteira de habilitação vencida  e recusa do teste de bafômetro são consideradas infrações gravíssimas e representam 7 pontos na carteira. Possivelmente, um cidadão comum nestas circunstâncias estaria enrascado; seria conduzido à delegacia e teria que conseguir um Advogado para retirá-lo de lá. Bom, mas passado este capítulo e deixando esta polêmica de lado, gostaria muito de conhecer o  outro capítulo da novela inusitada: Como o nosso digníssimo Senador vai ter sua Habilitação regularizada???… A Lei exige que, em tais situações,  os condutores de veículos ou frequentem uma semana de aula de trânsito em uma Auto-Escola credenciada ou façam uma prova de Legislação no Detran, para ter seus conhecimentos comprovados. Em qual das duas opções o figurão vai se enquadrar??? O que você acha??? Surgirá ainda, tendo em vista o alto escalão da figura destacada, uma terceira opção mais adequada???…Seria muito bom se a mídia investigativa acompanhasse mais este importante detalhe…

“A mulher do Lula” e as contas de campanha

dilma_beija_lulaNotável o esforço do Presidente Lula para popularizar a imagem da Ministra Dilma Roussef,  “a mulher do Lula”  como o povão vem dizendo, com vistas a conquistar a Presidência da República. O problema é que, além de deixar o exercício da presidência em segundo plano, ainda por cima o dinheiro público vem sendo utilizado descaradamente para fazer campanha política! As viagens de norte a sul do País para subir nos palanques custa dinheiro e muito dinheiro e somos nós que pagamos a conta!…

Absurdo este sistema! Primeiro, por questões éticas, o Presidente da República deveria se abster de se envolver em campanhas eleitoreiras; afinal ele foi eleito para presidenciar e não para utilizar indevidamente o cargo em benefício de outrem. Segundo, deveria existir uma lei que obrigasse os candidatos ou pré-candidatos a se afastarem do cargo imediatamente após deciderem concorrer a uma vaga eleitoral, evitando este tipo de desvio de dinheiro público mal difarçado com a inauguração de obras eleitoreiras pelo País. Vale esta observação para todos os demais políticos que pleiteiam novos cargos públicos: senadores, deputados, governadores, prefeitos e vereadores.

Infelizmente, enquanto não muda esta cultura exploratória, além dos pesados impostos que somos vítimas, vamos ter que continuar pagando as contas destes “ilustríssimos” representantes do povo!