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PALESTRA: O CICLO DE DEMING (PDCA) E A METODOLOGIA FREIRIANA APLICADOS EM UM CURSO DE PÓS-GRADUAÇÃO

“O Ciclo de Deming (PDCA) e a Metodologia Freiriana aplicados em um Curso de Pós-Graduação” é o tema da Palestra que estarei apresentando na III Jornada Intercursos da FACISA BH http://facisa.com.br/plus/ , no dia 26/05/17. Este tema foi objeto da Tese de Mestrado que conclui recentemente na Universidade Lusófona de Humanidades e Tecnologias em Lisboa – Portugal e vem sendo aplicado de forma muito bem sucedida nos diversos cursos de MBA onde leciono. Vale a pena conferir!.

A FALÊNCIA DO SISTEMA DE ENSINO-APRENDIZAGEM BRASILEIRO E A TEORIA DA REPRODUÇÃO – VIOLÊNCIA SIMBÓLICA

enem-iiSegundo Gustavo Ioschpe no seu livro “O Que o Brasil Quer Ser Quando Crescer?”, o último levantamento do INAF (Indicador Nacional de Alfabetismo Funcional realizado pelo Instituto Paulo Montenegro) mostrou que apenas 26% da população brasileira de 15 a 64 anos é plenamente alfabetizada. Isto significa que três quartos da nossa população não seriam capazes de ler e compreender um texto como este. Na Matemática, a situação é igualmente desoladora: só 23%, segundo o mesmo INAF, consegue resolver um problema matemático que envolva mais de uma operação, e apenas esse mesmo grupo tem capacidade para entender gráficos e tabelas.

Recentemente, os resultados demonstraram que 6,1 milhões de inscritos no ENEM, apenas 77 conseguiram nota máxima na Redação e 300 mil tiraram nota zero!

Sem dúvidas, os resultados são assustadores! Surge então uma pergunta que não quer se calar: onde está o problema?

Meus estudos e reflexões, influenciados pela minha Tese de Mestrado em Ciências da Educação em desenvolvimento, me levam a concluir que, longe de única e simplesmente, de forma imediatista, depositar a culpa nos nossos jovens, a causa fundamental do problema está relacionada a dois fatores fundamentais: a qualidade do ensino e os sistemas de avaliação de aprendizagem vigentes.

Comprovadamente a qualidade do nosso sistema de ensino, de uma forma geral, é ruim, evidentemente, sem considerar as ilhas reservadas aos filhos das elites, que frequentam as melhores escolas, sustentadas por mensalidades polpudas! Da infraestrutura à qualidade da mão-de-obra e à metodologia, temos muito que melhorar. É um número muito grande de escolas sem o mínimo de condições físicas para funcionar: faltam sistemas adequados de transporte, mesas, carteiras, refeitórios, alimentação adequada, banheiros, materiais didáticos e, em algumas delas, até mesmo teto. Sem contar as condições de segurança, com os alunos vivendo em meio à criminalidade e tiroteios cerrados. O investimento no desenvolvimento de nossos professores é mínimo e o reconhecimento, tanto em forma de remuneração como de valorização do trabalho, é o mais baixo de todos em relação às profissões consideradas nobres. Como se não bastasse, o sistema de ensino-aprendizagem segue a metodologia da “educaçãopaulo-freire-ii
bancária”, tão fortemente combatida por Paulo Freire, considerado o Pai da educação brasileira, onde os alunos, de forma passiva, são meros depositários das verdades absolutas ditas pelos professores em sala de aula. Vale lembrar aqui um dos seus preciosos ensinamentos: “Ensinar não é transferir conhecimento, mas criar as possibilidades para a sua própria produção ou a sua construção”.

Depois de passar por esta “via crucis”, no final do grande ciclo (ou “circo”) vem o ENEM, com a adoção de um sistema de avaliação somativo, aterrorizante, eliminatório e excludente, onde sempre os filhos das elites são os melhores classificados e aprovados com as melhores notas e os demais, pertencentes às classes oprimidas, são descartados. As estatísticas demonstram claramente este fato.

pierre-bourdieuPierre Bourdieu, (1930-2002), um famoso estudioso francês da da área de educação, a este fenômeno denominava de “Teoria da Reprodução”, onde, através da educação, o sistema reproduz o sistema de castas. É o que ele chamava de violência simbólica. Aos privilegiados, as melhores escolas, os melhores cursos, as melhores profissões, os melhores salários e, consequentemente, as melhores condições sociais, aos demais, as piores escolas, os piores cursos, quando conseguem frequentar, as piores profissões, quando encontram trabalho, o subemprego e a marginalidade. E assim o ciclo se reproduz indefinidamente.

Os resultados negativos do ENEM nada mais são do que a formalização de um certificado da falência do sistema de ensino-aprendizagem institucionalizado. Os pobres alunos expostos à humilhação pública são muito mais vítimas do que culpados. O controle do processo  com um sistema de avaliação ao final da linha só serve de mero instrumento para a constatação óbvia de uma série de derrotas cultivadas ao longo da vida estudantil dos reprovados, condenados à vala dos derrotados. Recordando Bourdieu: Nada é mais adequado que o exame para inspirar o reconhecimento dos vereditos escolares e das hierarquias sociais que eles legitimam”.

MBA SENAC

Sou Professor dos Cursos de MBA da Faculdade SENAC-MG há quase dez anos, trabalhando com diversas disciplinas da área de gestão de pessoas e recomendo! São cursos que associam elevado padrão de qualidade e baixo investimento. Se você quer investir no seu auto-desenvolvimento e tornar-se um profissional mais competitivo no mercado, venha estudar conosco!

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A FALTA DE VALORIZAÇÃO DO PROFESSOR NO BRASIL

Transmito na íntegra um artigo de autoria da Ducinéa Said Calil Pires, divulgado no Jornal Estado de Minas em dezembro de 2009, sobre os problemas em nosso País, com a falta de valorização do Professor. Apesar do tempo percorrido após a divulgação, infelizmente, o tema continua bastante atual.
P.S.: Infelizmente, houve um problema na imagem com um pequeno corte, sem maiores perdas de conteúdo.
VALORIZAÇÃO DO PROFESSOR

A VOCAÇÃO LITERÁRIA DE FREI BETTO

Transmito na íntegra a Entrevista concedida por Frei Beto ao Jornalista e Crítico Literário Manuel da Costa Pinto da Revista Cult, falando sobre literatura, religião, contexto político, atuação do Lula e do PT. Altíssimo nível! Vale a pena conferir!

Conhecido por sua atuação política contra o regime militar, o autor de “Batismo de sangue” fala de literatura, política e critica os desvios de rota do PT

Manuel da Costa Pinto

FREI BETOPrestes a completar 71 anos e com sessenta livros publicados, Frei Betto descobriu o amor pela escrita muito cedo, quando suas redações escolares (ou composições, como se dizia à época) fizeram os professores identificarem seu talento – mas só se tornou um autor “graças aos generais brasileiros”.
Integrante da Ação Católica, grupo que se opunha ao regime militar, Carlos Alberto Libânio Christo foi preso duas vezes: em 1964 e no período 1969-1973, quando estava no Rio Grande do Sul e participava de uma rede clandestina formada pelos dominicanos para apoiar os insurgentes.
Dessa segunda experiência, resultaram dois livros de cartas, atualmente reunidas num único volume intitulado Cartas da prisão. Começava a se desenhar aí o perfil do religioso e militante que publicou vários títulos de caráter memorialístico – entre eles, Batismo de sangue, que narra os episódios que levaram ao assassinato do ativista Carlos Marighella e que daria origem ao filme homônimo de Helvécio Ratton.
O cruzamento de atuação política com religião aproximaram Frei Betto do cristianismo progressista dos dominicanos e da teologia da libertação, mas jamais sufocaram sua verdadeira vocação – a literatura. Vocação que foi alimentada pela mãe, Maria Stella Libânio Christo, cristã progressista e autora de livros sobre culinária (entre eles, o clássico Fogão de lenha), e pelo pai, Antônio Carlos Vieira Christo, advogado, cronista e ferrenho anticlerical, que chorou copiosamente quando soube que o filho ia ingressar na ordem dos dominicanos, mas que mais tarde se tornaria “fã da teologia da libertação, de D. Pedro Casaldáliga”, segundo Frei Betto.
Na entrevista a seguir, concedida no convento dos dominicanos, no bairro paulistano de Perdizes, o autor de Minas do ouro fala da preocupação de dissociar a ficção das questões ideológicas – que continuaram presentes em suas intervenções públicas, levando-o a participar do programa Fome Zero, durante o governo Lula, mas não o impedindo de ser um crítico dos desvios de rota do PT e da timidez da esquerda.

CULT – Quando a literatura e a escrita aparecem na sua vida?
FREI BETTO Comecei a escrever muito cedo. Sempre conto que, aos oito anos, quando estava no grupo escolar, minha professora, Dercy Passos, entrou na sala com um maço de composições (belo nome que se usava então para as redações) e, ao fazer a correção, deixou a minha por último. No fim, disse à classe: “Vocês deveriam fazer como Carlos Alberto; ele escreve as próprias composições, não pede para os pais fazerem por ele”. Aí meu ego bateu lá em cima… E mais tarde, no primeiro ano de ginásio, no Colégio Marista, meu professor de português me chamou e disse: “Você só não será escritor se não quiser”. Só que, para mim, ser escritor era coisa de outro mundo, para gente muito erudita. Foi daí que me meti no jornalismo. Comecei, em 1966, por onde muitos almejavam concluir carreira: a revistaRealidade.
Mas só me tornei autor graças aos generais brasileiros, ao escrever Cartas da prisão – que foram publicadas primeiramente no exterior [com outros títulos e em volumes separados], primeiro na Itália, em 1971, em seguida na França e em outros países. Depois, em 1977, saíram no Brasil.

CULT A experiência política marcou muito sua literatura. Em que momento surge uma ficção “pura”, sem essa preocupação?
FREI BETTO A militância me dificultou muito na ficção, que é o que mais gosto de fazer. Tive de lutar para me desfazer dessa camisa de força. Meu primeiro romance foi O dia de Ângelo, onde ainda havia essa camisa de força, tinha um pouco das minhas experiências em celas solitárias. Depois vieram Hotel Brasil e Minas do ouro – em que me soltei mais.

CULT Essa mudança coincide com o período posterior à queda do muro de Berlim, quando as grandes questões ideológicas declinam. É só depois disso, por exemplo, que você escreve Hotel Brasil, um romance policial. Há alguma relação?
FREI BETTO Até onde consigo enxergar conscientemente, queria enfrentar o desafio de fazer um policial – duplo desafio de criar a ficção e o mistério, conduzir o leitor até o fim sem que ele descubra quem é o assassino. Foi isso que passou na minha cabeça. Não tive a consciência de que, com a crise das ideologias, iria fazer literatura “pura”.
Reservo 120 dias do ano só para escrever. Não são dias seguidos, mas são sagrados. E muitas vezes estou fazendo ficção e fico árido; daí, inevitavelmente, leio Machado de Assis. Ele me reaquece, provoca minha inventividade. Fui um leitor voraz de Jorge Amado e Erico Verissimo, de quem era amigo e que me ajudou a montar uma biblioteca na penitenciária em que estive preso – e fui muito marcado pela literatura francesa, Camus, o Sartre do teatro e de A náusea.

CULT Falando em Jorge Amado e Sartre, que eram escritores muito engajados, como você avalia a esquerda de hoje?
FREI BETTO A esquerda hoje é uma raridade. Conheci muito intimamente o mundo socialista, na Nicarágua, depois em Cuba, onde durante dez anos, entre 1981 e 1991, fiz um trabalho institucional de reaproximação entre Igreja e Estado. Com a queda do muro de Berlim, a esquerda acadêmica, que nunca teve um trabalho popular, foi cooptada pelo neoliberalismo, a ponto de hoje acontecer uma enorme crise econômica na Europa Ocidental e não haver qualquer proposta de esquerda.
O principal problema filosófico hoje é a desistoricização do tempo. Isso se reflete na esquerda mundial, que está perdendo o horizonte histórico (não tem utopia, não tem projeto), e também no plano pessoal – a dificuldade de se ter projeto pessoal na vida profissional, artística, afetiva (todos ficam vulneráveis a qualquer dificuldade na relação conjugal).
Isso está nos levando à falta de esperança, e faz com que a discussão política desça do racional ao emocional. Sempre participei de discussões políticas e nunca vi nível de animosidade tão forte como agora, porque se apagou o horizonte histórico.
Não é fácil ser de esquerda em um mundo tão sedutor quanto o do capitalismo neoliberal. Daí o problema do PT, que foi perdendo o horizonte histórico de um projeto Brasil e trocando-o pelo horizonte imediato de um projeto de poder.

CULT Quando percebeu que o PT abandonou seu projeto inicial?
FREI BETTO Isso desaparece na campanha de 2002, quando o PT faz a opção de assegurar a governabilidade pelo mercado e pelo Congresso – daí as alianças e a “Carta aos Brasileiros”, que na verdade é a “carta aos banqueiros”. Ali, o PT abandona sua matéria-prima, que são os movimentos sociais pelos quais deveria ter assegurado a governabilidade, como fez Evo Morales na Bolívia, que não tinha apoio no congresso, se apoiou nos movimentos sociais e, através deles, conseguiu mudar o perfil do congresso. Hoje, ele tem apoio dos dois, é o presidente mais consolidado de toda essa safra progressista. O PT optou pelo mercado e pelo Congresso. Agora, está refém dos dois e pagando um preço muito alto. Tanto que chamou um homem do mercado para ver se melhora a economia e entregou a parte política para o PMDB.

CULT Se você já havia se decepcionado desde a “Carta aos Brasileiros”, por que participou do programa Fome Zero, do governo Lula?
FREI BETTO Achei que a “Carta aos Brasileiros” fosse uma coisa tática, que, uma vez eleito, o PT faria reformas estruturais, tributária, agrária, algum tipo de reforma. Estava altamente entusiasmado. Sempre fui convidado para trabalhar em administração, mas nunca quis trabalhar nem para a iniciativa privada nem para governos. Gosto dessa vida cigana, solta. Quando Lula foi eleito e me convidou para o Fome Zero, achei que trabalhar com os mais pobres entre os pobres – os famintos – se enquadrava em minha perspectiva pastoral e tive todo apoio de meus superiores dominicanos e até de Roma.
Fiquei dois anos e, de repente, o governo matou o Fome Zero para substituí-lo pelo Bolsa Família. Tive então a certeza de que essa opção contrariava a tudo aquilo que o PT vinha pregando desde a fundação. O Fome Zero era um programa emancipador, o Bolsa Família é compensatório. O Fome Zero ia mexer na estrutura do país e por isso foi boicotado pelos prefeitos. Era coordenado por comitês gestores municipais, não passava pelos prefeitos, não havia como usar os recursos para fazer jogo eleitoreiro, então os prefeitos se rebelaram, pressionaram a Casa Civil, que pressionou Lula. No fim, Lula cedeu e eu caí fora.

CULT Você chegou a escrever que o PT faz “populismo cosmético”.
FREI BETTO O erro do Lula foi ter facilitado o acesso do povo a bens pessoais, e não a bens sociais – o contrário do que fez a Europa no começo do século 20, que primeiro deu acesso a educação, moradia, transporte e saúde, para então as pessoas chegarem aos bens pessoais. Aqui, não. Você vai a uma favela e as pessoas têm TV a cores, fogão, geladeira, microondas (graças à desoneração da linha branca), celular, computador e até um carrinho no pé do morro, mas estão morando na favela, não têm saneamento, educação de qualidade. É um governo que fez a inclusão econômica na base do consumismo e não fez inclusão política. As pessoas estavam consumindo, o dinheiro rolando e a inflação sob controle, mas não se criou sustentabilidade para isso. Agora a farra acabou, está na hora de pagar a conta e chama-se o Joaquim Levy [ministro da Fazenda].

CULT Os católicos de esquerda foram preteridos pelo PT por conta dos compromissos com os evangélicos?
FREI BETTO Lula sempre reconheceu que as Comunidades Eclesiais de Base (CEBs) tiveram mais importância na capilaridade do PT pelo território brasileiro do que o sindicalismo. Nos anos 80, havia núcleos do PT no fundo do Maranhão ou do Amazonas graças a essas comunidades. Enquanto foram atuantes, não havia evasão de fiéis para as igrejas pentecostais. Foi o fato de o Pontificado de João Paulo 2º reprimir as CEBs que fez com que os bispos já não as patrocinassem e que muitas pessoas bandeassem para as igrejas evangélicas.
Nas CEBs, o pobre se sente à vontade. Mas numa igreja, não. Você vai à paróquia e só tem classe média, tem a patroa, tudo é centrado no padre – não há convivência como numa comunidade. Ainda existem as CEBs, mas não com aquela força de antes.
As CEBs produziram muitos militantes, como Erundina, Vicentinho, Chico Alencar. As figuras éticas [do PT] têm uma tradição de igreja. O PT é formado por três segmentos: o pessoal da Igreja, o do sindicalismo e o da esquerda – remanescentes da esquerda da época da ditadura (Zé Dirceu, Paulo Vannuchi etc.). O pessoal das CEBs, por formação pessoal, nunca teve muita gana de poder. Aos poucos, ficaram em segundo plano.
Por outro lado, os evangélicos estão armando uma grande estratégia de domínio da política brasileira, que se resume ao seguinte: “Nossos princípios religiosos exigem determinadas atitudes morais e nós só podemos impor isso de duas maneiras: convertendo toda a nação (o que é impossível) ou tendo o poder de fazer a lei civil obrigar as pessoas a agirem como nós queremos (já que a lei é universal)”. Se você tem a caneta, você transforma seu princípio religioso em lei.

CULT Você vê sinceridade religiosa nessas posturas ou é manipulação de sentimentos reativos dos fiéis?
FREI BETTO As duas coisas. Há os fundamentalistas e há os que são meramente oportunistas. Estes perceberam que aquilo é um manancial de votos. O pastor diz claramente: “o candidato é esse”. Isso não acontece na Igreja Católica – aconteceu lá nos anos 30, com a LEC (Liga Eleitoral Católica), em que o bispo dizia “isso sim, isso não”. Nas igrejas evangélicas, há hoje um direcionamento muito explícito. Muitos políticos estão ali por fundamentalismo, muitos por oportunismo.

CULT Qual sua posição sobre a liberação do aborto?
FREI BETTO Defendo o modelo francês. Tudo deve ser feito pelo Estado para convencer a mulher a não abortar, mas a decisão final é dela. Esse modelo, em primeiro lugar, fez com que acabasse o aborto clandestino e, portanto, diminuísse o índice de mortes. Em segundo lugar, o fato de o médico e o ministro da confissão religiosa da mulher induzirem-na a não abortar aumentou o índice de mulheres que foram à procura do aborto, mas decidiram assumir o filho. Eu mesmo tenho experiência pessoal disso. Já recebi vários adolescentes nessa situação e sempre disse o seguinte: “Tenha o filho e deixe aqui que eu crio, pode deixar na porta do convento”. Nunca ninguém trouxe e hoje tenho uma porção de apadrinhados… Tenho uma posição aberta, acho que aborto em última instância é um direito da mulher e não pode ser criminalizado de jeito nenhum.

CULT Mas isso não vai contra os dogmas da Igreja?
FREI BETTO Não é dogma. Se fosse, a Igreja também teria de ser contra a guerra, não haveria capelão militar e, nos EUA, seria contra pena de morte. Na verdade, há uma ambiguidade na teologia. São Tomás de Aquino aceitava o aborto até quarenta dias após a fecundação, porque ainda não haveria ali, propriamente, uma pessoa – e ele é a doutrina oficial da Igreja. A discussão teológica não está fechada. Tanto que escrevi um texto sobre isso em 1988, que circulou na CNBB, e nunca recebi advertência. Aliás, nesse texto digo que “se homem parisse, aborto seria um sacramento”…

CULT E em relação ao casamento homossexual?
FREI BETTO O fundamento da relação de qualquer ser humano é o amor – e, se há amor, há Deus. O tema da sexualidade e da família está congelado na Igreja Católica desde o século 16. Tentou-se várias vezes abrir esse tema nos concílios, mas ele foi podado. Acho que o papa Francisco, muito inteligentemente, está conseguindo quebrar esse preconceito. Em vez de falar “vamos aceitar o casamento homoafetivo”, ele fala “esses casais têm filhos, as crianças não têm direito à catequese?”. Com isso, já abriu o caminho. Ele acaba de receber no Vaticano um transexual espanhol que foi discriminado pelos bispos e que agora vai casar. Foi um escândalo na Espanha, tanto que dizem que a direita de lá reza assim para o papa: “Senhor, iluminai-o ou eliminai-o”.

CULT Outro tema atual que divide a opinião pública é a redução da maioridade penal. Qual sua posição?
FREI BETTO Criminalizar a juventude é uma maneira cômoda de se omitir naquilo que deveria ser feito para evitar a criminalidade juvenil: dar educação. É o caso das UPPs do Rio: a polícia sobe à favela, mas não sobem escola, teatro, cinema, esporte, música – e o traficante não quer que seu filho seja bandido, quer que ele seja doutor. Uma geração já poderia ter sido salva no Rio se os equipamentos sociais também tivessem subido às favelas.

CULT Como militante e ex-preso político, como vê o clamor pelo impeachment da presidente e pela volta da ditadura?
FREI BETTO Não me preocupam ameaças de impeachment ou golpe. Não há caldo de cultura. Os militares nem saem de farda na rua. Militar, no Brasil, antes andava orgulhosamente de farda, até para arrumar namorada…
O que me preocupa é a despolitização da juventude brasileira. Os segmentos de esquerda deveriam estar preocupados com a politização, como houve imensamente nos anos 70 e 80. Não há mais formação de consciência crítica – e aí o pessoal vai no emocional, no oba-oba da volta dos militares, sem ter ideia do que foi a ditadura, que pode parecer que foi tranquila, mas é porque havia uma censura brutal. Estamos voltando a esse nível de desinformação, a esse horror à política.

Manuel da Costa Pinto é jornalista e crítico literário

Fonte : http://revistacult.uol.com.br/home/2015/05/a-vocacao-literaria-de-frei-betto/

PROFESSOR, PROFISSÃO DESVALORIZADA

OPERAÇÃO PROFESSORRecentemente recebi um Edital do Processo Seletivo para Professores 2016 de uma instituição governamental. Lendo o edital, descobri que para uma carga horária de 20hs semanais, portanto 80hs mensais, um Professor Especialista, portanto graduado e pós-graduado, irá receber um salário-base de R$865,65. Como o Estado é “bomzinho”, concede uma gratificação e Incentivo à Docência no valor de R$177,13 e uma Gratificação de Desempenho de Professor de Nível Superior no valor de R$335,79. Com isto o Professor, ao final do mês, depois de trabalhar 05 dias por semana, de 18hs às 22hs, de segunda a sexta-feira, fora os trabalhos adicionais em casa, recebe um total de R$1.398,57 por mês. Pois bem, fiz uns cálculos multiplicando este valor por 12 para ver o ganho anual e cheguei ao montante de R$16.782,80, o que representa em dólares o equivalente a US$4.184,20. Surpreso e indignado com este valor, liguei para a área responsável pelo Processo Seletivo questionando e um dos representantes da instituição, meio constrangido, reconhecendo o absurdo, confirmou o resultado.
Em busca de parâmetros para melhor avaliar, fiz uma pesquisa identificando os 10 países do mundo onde os professores são mais bem pagos e encontrei os seguintes resultados:
1-Luxemburgo: US$ 101 mil
2-Suíça: US$ 65 mil
3-Alemanha: US$ 60 mil
4-Holanda: US$ 55 mil
5-Espanha: US$ 49 mil
6-Irlanda: US$ 49 mil
7-Coreia do Sul: US$ 48 mil
8-Canadá: US$ 48 mil
9-Dinamarca: US$ 47 mil
10-Áustria: US$ 46 mil
(Fonte:http://lista10.org/diversos/os-10-paises-onde-professores-sao-mais-bem-pagos/)
É fácil de observar que o último país da lista, a Áustria paga o equivalente a quase 11 vezes mais que o valor divulgado! Minha indignação aumentou, que triste realidade!
Aprofundando minha pesquisa, fui buscar mais informações, comparando com os salários dos políticos brasileiros e cheguei aos novos resultados:
1-Senador e Deputado Federal: R$33.763,00/mês – US$101.011,22/ano
(Fonte: http://www.sitedecuriosidades.com/curiosidade/salarios-de-politicos-em-2015.html
2-Deputado Estadual MG: R$ 17.165,33 – US$51.354,76/ano
(Fonte:http://g1.globo.com/minas-gerais/noticia/2015/02/com-salario-de-r-17-mil-deputados-de-mg-aprovam-auxilio-moradia.html)
3-Vereador BH: R$13.629,46 – US$40.776,25/ano
(Fonte: http://www.cmbh.mg.gov.br/portal-da-transparencia/pessoal/estruturaremuneratoria/vereador)
Os valores citados são básicos, sem considerar os benefícios e os (gordos) adicionais que são pagos.
Da mesma forma, podemos observar que um Vereador, o menos remunerado da lista, às vezes sem nem concluir o ensino médio e sem nenhuma carga horária de trabalho efetivamente registrada, ganha o equivalente a quase 10 vezes mais que o professor do Edital divulgado! Novamente, me deparo com esta outra triste realidade!
Creio firmemente que a solução para o progresso começa, passa e termina com a educação, mas uma educação de qualidade, onde o elemento mais importante, o professor seja realmente reconhecido e valorizado. Afinal, todos os outros profissionais saem dos bancos escolares. Dizem que no Japão o único profissional que não precisa se curvar para o imperador é o professor, pois segundo os japoneses em uma terra onde não há professores não pode haver imperador. No Brasil, pelo que parece, os professores acabam tendo que viver permanentemente curvados, subjugados por uma sobrevivência apertada.
Infelizmente os fatos e os dados, como visto acima, demonstram que estamos muito longe de alcançar um patamar onde a educação e os professores sejam realmente valorizados. É triste observar que a tão sonhada Pátria Educadora fica somente nos discursos e muito distante da prática!

O ENEM, O SISU E A TEORIA DA REPRODUÇÃO DE PIERRE BOURDIER

EDUCAÇÃOO Sistema de Ensino Brasileiro tem uma cultura predominantemente focada em preparar o jovem, desde a infância até a conclusão do ensino médio, de forma exaustiva, maquiavélica e discriminatória, para ser aprovado no Exame Nacional do Ensino Médio, o ENEM e, na sequência, batalhar por uma vaga em uma Universidade através do Sistema de Seleção Unificado – SISU. Do antigo vestibular para o sistema atual, sinceramente não consigo ver grandes evoluções. Em vez de terem que se deslocar para se submeterem ao terrorismo do Exame em terras distantes, nossos jovens passaram a ter o “privilégio” de sofrer mais próximo do local de origem. Neste Sistema, o ensino é utilizado como uma mera ferramenta para aprovação no Exame no final da linha e para a manutenção do status quo da pirâmide e não como um instrumento de formação do ser humano como agente de transformação social. O conhecimento é difundido cada vez mais através de uma série de macetes, fórmulas decoradas, decorebas e “tirocetes” (tirocínio + macetes) onde os maiores e melhores são sempre aqueles nascidos em berço de ouro e que tiram as notas mais altas. Alguns poucos, verdadeiros heróis pertencentes às classes menos privilegiadas conseguem quebrar o ciclo e evoluir socialmente. Desta forma, ganham cada vez mais o capitalismo dos cursinhos preparatórios e o sistema discriminatório de manutenção das castas sociais.

Os resultados do ENEM 2015 demonstraram que os alunos que obtiveram as melhores classificações e foram para as melhores universidades foram justamente os alunos pertencentes às classes mais altas e que frequentaram as melhores escolas particulares e os melhores cursinhos preparatórios, evidentemente inaccessíveis aos demais jovens. Em contrapartida, estes demais jovens que obtiveram as piores classificações foram justamente aqueles pertencentes às classes pobres, que frequentaram as escolas públicas e não tiveram condição de pagar os cursinhos preparatórios.

Pierre Bourdier (1930-2002), um famoso estudioso francês da área de educação, desenvolveu uma teoria chamada Teoria da Reprodução, onde afirma que os sistemas tradicionais de ensino nada mais fazem que reproduzir os sistemas de castas sociais, ou seja, normalmente os jovens que são provenientes de famílias com maior poder aquisitivo, são os que frequentam as melhores faculdades e, consequentemente, conseguem se formar nas profissões mais rentáveis. Pelo contrário, aqueles que são provenientes de famílias de menor poder aquisitivo, são os que frequentam as piores faculdades (quando frequentam) e acabam se formando em profissões menos rentáveis (quando se formam). E assim o sistema se reproduz indefinidamente.

Se tivéssemos de fato um ensino básico de qualidade para todos, conforme rezam as novas metas do milênio, com certeza nossos jovens não precisariam passar por este martírio e as oportunidades seriam equalitárias.Creio que a nossa chamada “Pátria Educadora” para o ser de fato e de direito precisaria de rever de forma drástica a estrutura de ensino vigente, com menos discriminação e menos desigualdades, através de mudanças basilares onde as oportunidades sejam iguais para todos independentemente das origens ou classes sociais. Infelizmente parece que Paulo Freire tinha razão quando afirmava: “Seria uma atitude ingênua esperar que as classes dominantes desenvolvessem uma forma de educação que proporcionasse às classes dominadas perceber as injustiças sociais de maneira crítica”.