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O AMBIENTE VUCA E OS 3P’S E 1S NOS MEIOS ORGANIZACIONAIS

vucaVivemos um um mundo volátil, incerto, complexo e ambíguo. A sigla VUCA (Volatility, Uncertainly, Complexity, Ambiguity) teve sua origem no meio militar norte-americano nos anos 90 e retrata de forma muito apropriada o momento em que estamos vivendo.

O termo volátil é usado na Química para designar tudo que evapora no seu estado normal com facilidade. Nos meios organizacionais, representa a velocidade das mudanças em que o mundo está envolvido. É uma verdadeira metamorfose ambulante, como dizia Raul Seixas. Lulu Santos, com maestria, reforça este pensamento na música “Como uma onda no mar”“Nada do que foi será de novo do jeito que já foi um dia, tudo passa, tudo sempre passará. Tudo que se vê não é igual ao que a gente viu há um segundo. Tudo muda o tempo todo no mundo”. Todo dia surge um novo aplicativo revolucionário, os smartphones e aparelhos eletrônicos evoluem numa velocidade espantosa, tornando obsoleto o que ontem era uma grande inovação, num ciclo interminável. Grandes empresas quebram, altos executivos com seus egos inflados, que estavam no auge da carreira são presos e, trocando o terno pelo uniforme de presidiário, são colocados atrás das grades. Políticos perdem os cargos e acompanham os executivos para a prisão após serem descobertos em um lamaçal de corrupção e falcatruas. E assim caminha a humanidade…

Incerteza é o fantasma que assola o dia a dia das empresas. A única certeza é que tudo é incerto. O “P” do Ciclo PDCA de Deming encontra dificuldades nunca antes enfrentadas para ser colocado em prática. Planejar tornou-se um desafio de proporções incomensuráveis. É cada vez mais difícil levantar cenários futuros com base em acontecimentos passados. Os famosos planejamentos estratégicos tem que ser revistos em uma periodicidade cada vez maior, com o risco de se tornarem obsoletos e levarem as organizações à autodestruição.

A complexidade é enorme. Tudo se relaciona com tudo e a dificuldade de entender como as partes se relacionam entre si e com o todo desafia as mentes brilhantes. A visão sistêmica ficou ofuscada pelo emaranhado de teias multirrelacionadas. A China desacelera a produção e o mundo inteiro sofre com força o impactos econômico-social,  gerando desemprego e pobreza. Multidões de emigrantes deixam seus países fugindo das guerras,  impactando de forma dura o bem estar e a consciência das nações desenvolvidas. Desastres ecológicos acontecem gerando consequências enormes para os meios políticos, sociais e organizacionais. Presidentes e políticos eminentes caem afetando de forma direta a estabilidade econômica e social do mundo inteiro.

A ambiguidade impera em todos os sentidos, afetando a vida dos países, das organizações e das pessoas. Afinal, o deus dos terroristas que destroem de forma cruel e covarde vidas inocentes é o mesmo deus dos cristãos e dos judeus que frequentam as igrejas e sinagogas? O grande líder político que governou por longos anos o Brasil e deixou sua economia em frangalhos era de fato um grande estadista ou uma raposa travestida de cordeiro?  A mineradora que foi premiada inúmeras vezes como “benchmark” em termos de competência organizacional, social e ambiental e foi responsável  por um dos maiores desastres ecológicos do planeta era realmente íntegra ou a sua bela missão, visão e valores era só de fachada, “green-washing”, travestindo-se de verde para obter maquiavelicamente o lucro a todo custo? Onde está a verdade?

Afinal, surge a pergunta que não quer se calar: como fazer para sobreviver em meio a este ambiente? Existe um caminho, uma estratégia a ser traçada?

Os estudos e resultados concretos já alcançados por alguns iluminados indicam que sim! O investimento estratégico nos robustos pilares dos 3P’s e do 1S  -People, Planet, Profit e Spirituality -apresenta-nos a solução.  Vejamos:3ps-1s
People: o primeiro “P” está relacionado ao ser humano. As pessoas devem estar sempre em primeiro lugar, afinal, por mais que discordem os capitalistas selvagens, a razão primeira de qualquer organização, evidentemente sem abrir mão do lucros,  deveria ser o bem estar social. Quem duvida, é bom ver o conceito de Capitalismo Social ou de Capitalismo Consciente, protagonizado por John Mackey, dono da Whole Foods, uma das maiores redes de supermercados americana. A volatilidade das mudanças permanentes, o progresso acelerado da tecnologia, a correria do dia a dia e a busca pela lucratividade não nos dá o direito de passar por cima, de forma maquiavélica, da dignidade do ser humano. É como dar um tiro no próprio pé, o feitiço vira-se contra o feiticeiro e o resultado sempre é desastroso. Com certeza, as incertezas tendem a diminuir quanto maior o investimento no desenvolvimento do ser humano.

Planet: o segundo “P” está relacionado à nossa casa maior, ao planeta. O Papa Francisco na Encíclica Laudato Si já fez o alerta. Ou nós cuidamos bem do nosso planeta ou, em um futuro não muito distante, estaremos todos fadados à autodestruição, sem direito a uma segunda chance. Os gritos desesperados da natureza já andam ecoando em altos brados pelos quatro cantos do planeta, com tremores, inundações, poluição e desastres ecológicos de elevadas proporções e consequências. Estudos recentes realizados nos USA demonstraram que o aumento do número de terremotos está diretamente ligado ao processo agressivo de extração de petróleo. É urgente que entendamos de forma consciente a complexidade do mundo moderno e como as partes se relacionam entre si e com o todo.

Profit: em terceiro lugar temos o terceiro “P”, Profit – lucro. Indiscutivelmente, é inconcebível que uma empresa não dê lucro, com o sério risco de ser enquadrada como socialmente irresponsável, mas esta não pode ser a sua razão primeira de sua existência. O grande diferencial está em entender que este lucro não pode servir para a aceleração das desigualdades sociais e da pobreza e sim para o desenvolvimento social, beneficiando a todos os stakeholders.

Spirituality – espiritualidade. Pode parecer estranho para alguns falar sobre espiritualidade dentro das empresas, mas este realmente o  maior de todos os diferencias. Espiritualidade é compreender que existe um Ser maior que governa o universo, não importa que nome se dê a ele e que este Ser inspira um sentimento maior de amor e fraternidade que move todos os seres humanos em busca de um objetivo comum. É a  “propensão humana a buscar significado para a vida por meio de conceitos que transcendem o tangível, à procura de um sentido de conexão com algo maior que si próprio” (Wikipedia). 

A volatilidade, as incertezas, a complexidade e a ambiguidade podem sim serem vencidas através do investimento permanente no desenvolvimento do ser humano, no cuidado inegociável com o nosso planeta, na busca consciente pelo lucro e na espiritualidade do ser humano. É só uma questão de acreditar e colocar estes preceitos em prática de forma estratégica, consciente e inquestionável. Quem term ouvidos que ouça…

 

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EMPRESAS COM VALORES

EMPRESAS COM VALORESNa sua essência, qual o verdadeiro objetivo de uma organização, qualquer que seja esta organização? Como especialista em Gestão de Pessoas e Professor de Cursos de Pós-Graduação, a experiência, infelizmente, tem me demonstrado que nove entre dez dos entrevistados sobre a questão, dos mais variados cargos e níveis, incluídos empresários que se dizem socialmente responsáveis, não hesitam em responder prontamente: o lucro!
Esta resposta segue embasada na teoria do Capitalismo Liberal, influenciado pelo filósofo Thomas Hobbes: O objetivo principal de uma empresa, o que mais lhe interessa é o lucro, o lucro máximo. Os valores éticos tradicionais como honestidade, justiça e solidariedade são aceitos, desde que não ameacem este lucro ou contribuam de alguma forma para ele.
Contrariamente a este princípio, o conceito de Capitalismo Social, influenciado pela doutrina social da igreja e pelas encíclicas papais, preconiza que os resultados financeiros, embora absolutamente necessários para a sobrevivência do negócio, são apenas uma consequência do objetivo principal e não sua razão de existência. Sendo assim as indústrias, os comércios, as instituições ligadas ao ensino, à saúde ou a qualquer atividade de negócio, têm como razão primeira a geração de um bem para a sociedade. O lucro, conforme citado, é uma consequência do negócio e, merece destaque, uma consequência estritamente necessária, mas não sua razão primeira.
ADCERecentemente a Associação de Dirigentes Cristãos Empresariais – ADCE-MG, em parceria com a CNBB, iniciou o desenvolvimento de um Projeto denominado Empresa com Valores. O objetivo consiste em propiciar um amadurecimento dos participantes fazendo com que valores como a ética, a solidariedade, a justiça e a primazia do ser humano sobre o trabalho provoquem uma reflexão profunda nas empresas, gerando assim fortes impactos positivos nos meios organizacionais e na sociedade. A proposta inclui fazer com que o líder empresarial comprometa-se de maneira responsável com o sucesso da empresa à luz dos princípios da dignidade humana e do bem comum e que suas ações passem a ser sustentadas pelo tripé básico ver, julgar e agir. Ver e julgar segundo conceitos radicalmente humanitários e cristãos e agir de forma consciente, entendendo que sua vocação deve ser motivada por princípios sustentáveis, muito além especificamente do sucesso financeiro.
john_mackeyÉ bom observar que, apesar do entendimento de muitos descrentes, este conceito já vem sendo assimilado por alguns grandes empresários. Recentemente, John Mackey, presidente de uma das maiores redes de supermercados americanas, a Whole Foods, afirmou claramente na mídia: “não há nada de errado em lucrar, mas essa não é a função primordial de um negócio e sim sua consequência”. Na mesma linha, Dominic Barton, Diretor geral da Consultoria McKinsey, uma das maiores consultorias mundiais em termos de estratégia organizacional, afirmou: “para o capitalismo prosperar, as empresas precisam urgentemente abandonar o foco exclusivo nos acionistas para servir consumidores e funcionários”.
Estes senhores não estão sozinhos; Peter Drucker, considerado o Pai da Administração nos tempos modernos,PETER DRUCKER sabiamente afirma: “uma organização que visa o lucro é, não apenas falsa, mas também irrelevante. O lucro não é a causa da empresa, mas sua validação. Se quisermos saber o que é uma empresa, devemos partir de sua finalidade, que será encontrada fora da própria empresa”.
DOM HELDERÉ fato que os céticos e capitalistas selvagens irão ironicamente afirmar que isto tudo não passa de um sonho muito distante da realidade. A eles eu diria, recordando D. Helder Câmara: “nada de sonhar pequeno! Gosto de pássaros que se apaixonam pelas estrelas e voam em sua direção até cair de cansaço”… Quem tem ouvidos, que ouça!

GESTÃO COM PESSOAS: QUEBRANDO PARADIGMAS

Paradigmas são crenças cristalizadas que influenciam o comportamento das pessoas e das organizações. Existem alguns paradigmas ultrapassados em termos de gestão com pessoas que comprometem fortemente o alcance dos resultados estratégicos das empresas e precisam urgentemente ser mudados. Vejamos alguns dos mais importantes na prática.

Paradigma 1: O objetivo de uma organização é a obtenção de lucro a todo custo, não importando para isto os meios utilizados.

Quebra do paradigma: o verdadeiro objetivo de uma organização, qualquer que seja, na sua essência, é a contribuição para o bem estar social e para a valorização do ser humano. O lucro, apesar de absolutamente necessário, é consequência desta contribuição. Organizações verdadeiramente comprometidas com o social obtêm elevados níveis de lucratividade.

Paradigma 2: O ser humano é um recurso, e como tal pode e deve ser substituído ou descartado a qualquer momento ao primeiro sinal de crise ou problema enfrentado.

Quebra do paradigma: Não existe mais gestão de recursos humanos e sim gestão com pessoas. Pessoas são o maior patrimônio de uma organização e, como tal, não podem ser maquiavelicamente descartadas. Pelo contrário, devem ser valorizadas em termos de investimento, participação e reconhecimento. Demissões representam perda do capital intelectual da organização e devem a todo custo serem evitadas.

Paradigma 3: O ser humano é preguiçoso por natureza, tem aversão ao trabalho, e como tal deve ser fiscalizado e controlado a todo instante, caso contrário não gerará produtividade.

Quebra do paradigma: O ser humano, independentemente do nível hierárquico, quando devidamente reconhecido e valorizado, se apaixona pelo seu trabalho e gerará elevados índices de produtividade.

Paradigma 4:  A empresa é composta de cabeças pensantes, ocupadas pelos profissionais lotados nos cargos de chefia e de mão de obra, ocupada pelos empregados operacionais. Aos ocupantes dos cargos de chefia compete pensar, aos ocupantes dos cargos operacionais, compete produzir.

Quebra do paradigma: Não existe mão de obra, existe cabeça de obra. A empresa é composta de cabeças pensantes, independentemente do cargo que o empregado ocupa. Todos podem e devem utilizar o conhecimento como forma de alavancar a produtividade.

Paradigma 5: Gestão dos recursos humanos é responsabilidade dos profissionais da área de recursos humanos, aos ocupantes de cargo de chefia compete somente gerir tecnicamente seus processos.

Quebra do paradigma: Não existe mais gestão de recursos humanos, existe gestão com pessoas e esta gestão é de responsabilidade de todos os ocupantes de cargos de liderança da empresa: supervisores, coordenadores, gerentes e diretores. Os profissionais da antiga área de recursos humanos devem funcionar como assessores dos ocupantes dos cargos de liderança.

Paradigma 6: Treinamento é custo e como tal dever ser reduzido ao mínimo necessário.

Quebra do paradigma: Treinamento não é custo, treinamento é investimento. Quanto mais se investe na capacitação e desenvolvimento dos empregados, maior a produtividade e a rentabilidade da empresa, e este retorno financeiro compensa em elevado nível todos os gastos.

Paradigma 7:  O bom empregado é aquele que não contesta as ordens dos seus superiores imediatos. Manda quem pode, obedece quem tem juízo.

Quebra do paradigma: O bom empregado é aquele que contesta, de forma adequada e no momento certo, as ordens dos seus superiores imediatos. Ouvir os liderados sempre que possível, antes de tomar uma decisão, leva a obtenção de comprometimento e bons resultados.

Gestão com pessoas veio para ficar. As empresas realmente maduras e que já quebraram de forma concreta estes paradigmas estão obtendo excelentes resultados. Vale a pena refletir sobre o assunto e colocar em prática.

 

CULTURA ORGANIZACIONAL: BEM-VINDO AO INFERNO!

O ano era 2005 e eu acabava de assumir uma Gerência Corporativa de Recursos Humanos em uma empresa familiar na grande São Paulo. Logo que cheguei à cidade, fiquei hospedado em uma residência de propriedade da organização em um condomínio de luxo e, no outro dia cedo, o motorista foi me buscar. Tão logo ele chegou e estacionou o veículo ao lado da pomposa residência, entrei e desejei-lhe um bom dia, estendendo-lhe a mão, sorridente e animado.

O motorista olhou para mim com um certo olhar de desprezo, tocou minha mão estendida com um toque desvivificado e, friamente, respondeu-me: -Bom dia! Bem-vindo ao inferno! Por um breve momento senti-me como se estivesse levado uma pancada. Tentei ainda conservar meu sorriso, mas ele foi desaparecendo de maneira pausada. Recolhi minha mão gelada que tinha sido por ele tocada. Tentei organizar minhas idéias e, nesta tentativa, perguntei-lhe, de forma meio desconcertada:-Como assim, “bem-vindo ao inferno”! Ele, secamente, respondeu-me:-Rapidinho o senhor vai saber! Logo, logo o senhor me fala…O trajeto era curto e ele não comentou mais nada. Chegamos à empresa, passei pela portaria e entrei no “inferno”. Para minha infelicidade, o motorista falara a verdade…

A narrativa acima poderia ser de um filme de terror ou de uma estória dramática, mas infelizmente trata-se de uma realidade! Uma dura e traumática realidade! Pobre dos trabalhadores que precisam sobreviver em empresas como esta, totalmente desprovidas de ética e de civilidade! E o pior é que elas existem, e são muitas por aí espalhadas!…

Gustavo Boog, em seu livro “O Desafio da Competência” desenvolve, de uma maneira muito acertada, uma belíssima abordagem sobre cultura organizacional e, entre os vários tipos de cultura citados, descreve um que denomina de “Inferno Organizacional”. É o tipo característico da empresa em que a busca pelo lucro maquiavélico impera de forma intransigente e desenfreada! Não existe respeito pelas pessoas nem pelas leis e o investimento em tecnologia e processos é inexistente ou escasso. O autoritarismo e o medo são práticas desveladas, tornando a mão-de-obra cada vez mais escravizada.  Os salários são baixos e as condições de trabalho ruim, evidentemente com exceções para algumas classes privilegiadas. O índice de acidente de trabalho é elevado e as punições de caráter extremado: advertências, suspensões e justas-causas são mecanismos altamente utilizados. O critério de seleção e de promoção dos empregados é subjetivo, normalmente ligado a questões pessoais e, por que não dizer, sexuais. São empresas que não possuem organogramas, mas “orgasmogramas”, jargão utilizado de maneira pernóstica e velada por alguns membros de uma cúpula depravada.  Neste contexto, algumas figuras femininas dotadas de atributos físicos excepcionais e desprovidas de competências profissionais, são facilmente encontradas ocupando cargos de direção, com salários em patamares elevados.

Em ocasiões especiais, o poderoso chefão se traveste de “pai-dos-pobres” e promove o “pão e o circo” para a alegria da galera obinubilada. São festas regadas a cerveja e churrasco, onde ele senta-se em uma mesa rodeada de puxa-sacos, distribuindo brindes para a peãozada. No final da festa, tudo se transforma em um verdadeiro carnaval e na segunda-feira, com uma baita ressaca e preocupado com os exageros praticados, volta o trabalhador inseguro ao trabalho, temeroso do que o aguarda!…

A princípio pode parecer muito surrealista este quadro, mas, com certeza, vários leitores que já passaram ou passam por esta infernal etapa compreendem exatamente o que estou falando e sabem do que se trata.

Surge então no ar uma pergunta que não quer se calar: até quando organizações deste tipo vão continuar???

Boog cita ainda no seu livro, um tipo de cultura que denomina de “Nirvana” ou “Paraíso Organizacional”. São tipos de empresas que investem de maneira séria, respeitosa e sistemática na valorização e desenvolvimento de seus empregados, tanto quanto investe na melhoria de seus processos e na obtenção de resultados, não só de curto, mas também de médio e longo prazo. Estas empresas estabelecem a primazia do ser humano sobre o capital. Renomados estudiosos sobre o assunto, entre eles o Peter Drucker, considerado “O Pai da Administração” e o próprio Boog, não tem dúvidas em afirmar que o sucesso de qualquer empresa está relacionado a uma gestão ética, participativa e socialmente responsável e, além disto, ao respeito, ao reconhecimento e à motivação dos empregados. Empresas que não agem assim, com certeza, estão fadadas ao fracasso!

Enfim, Nirvana ou Inferno Organizacional? Vale à pena refletir: Como empresário, em qual tipo de empresa a sua se enquadra? Tem certeza? O que diriam seus empregados se pudessem livremente se expressar?

Como empregado, em qual tipo de empresa você trabalha? Já se perguntou qual o seu papel nisto tudo e o que você está fazendo para reverter ou contribuir para este quadro, se for o caso?

OS MINEIROS SOTERRADOS DO CHILE E O GERMINAL DE EMILE ZOLA

Assustador o acidente ocorrido com os mineiros numa mina de cobre e ouro, a San Esteban, na cidade de Copiapó, situada na região norte do Chile. O acidente ocorreu devido a um desmoronamento que bloqueou o acesso dos mineiros à superfície, deixando-os isolados a 700 metros da superfície.

O que chama a atenção são as informações referentes às condições de segurança desta mina e de outras localizadas na região. Notícias informam que nove minas, apontadas como de pequeno porte, foram fechadas nos últimos tempos por falta de rotas de fuga. A mina de San Esteban, onde ocorreu o acidente,  não tinha alternativas de ventilação e saídas em condições de serem usadas pelos trabalhadores. O Governo chileno reconheceu que tinha conhecimento do descumprimento das normas de segurança na mina. Absurdo! Agora, depois do acidente, o presidente Sebastián Piñera, ordenou uma série de mudanças no sistema de mineração do país e encaminhou ao Legislativo uma proposta de ampliação da legislação trabalhista, reforçando o esquema de segurança do setor. Os donos da San Esteban estão sendo processados pelos familiares por tentativa de homicídio:  “O empregador deveria saber que um acidente como esse com resultado trágico de morte poderia ocorrer”, afirmou ontem Edgardo Reinoso, advogado das famílias. 

Vem a pergunta que não quer se calar: Por que não foram tomadas providências antes da ocorrência do acidente? Onde estavam os donos desta “fábrica de túmulos” que não enxergaram tamanhas evidências de possibilidade de ocorrências de uma catástrofe? Será que o brilho fulgurante do ouro ofuscou-lhes a visão?

Tudo indica que a ambição desmesurada e louca do capitalismo selavagem e sua busca desenfreada por maiores cifrões falou mais alto do que a importância da vida humana e a segurança do trabalho ficou relegada a último plano. Deu no que deu…

Pelo visto, as condições sub-humanas de trabalho nas  minas de carvão da idade média, relatadas por Emile Zola em seu clássico Germinal, infelizmente ainda econtram espaço no mundo atual. Até quando milhares de vidas humanas ainda vão ser sacrificadas por capitalistas inescrupulosos em nome da obsessão desenfreada pelo lucro???

CAPITALISMO SOCIAL

THOMAS HOBBESO filósofo inglês Thomas Hobbes, no século XVII, criou o conceito de capitalismo liberal, onde o ser humano é considerado essencialmente e naturalmente egoísta e anti-social e vive numa guerra permanente de todos contra todos: “homo homini lúpus”- o homem é lobo do homem. Neste modelo, as organizações vivem exclusivamente para alcançar o lucro máximo, não importando para isto que os meios utilizados sejam em detrimento de valores éticos e legais. Prevalece a máxima de Maquiavel: “o fim justifica os meios”.

TERRAContrariamente ao pensamento do renomado filósofo, surgiu no século XIX, com o objetivo de coibir os abusos do capitalismo selvagem e influenciado pela doutrina social cristã, o conceito clássico de capitalismo social. O conceito preconiza que o ser humano é naturalmente e essencialmente social e que estabelece objetivos comuns, onde todos colaboram para a busca da felicidade. Neste modelo a razão primeira de ser de uma organização é a produção de bens ou serviço que promovam o bem estar social. Os resultados financeiros, embora absolutamente necessários para a sobrevivência do negócio, são apenas uma conseqüência do objetivo principal. A organização deve agir dentro da lei e além dela, remunerando os empregados de maneira justa e muitas vezes, superior ao mínimo legal e zelando de maneira ostensiva pela qualidade de vida no trabalho. Os valores éticos absolutos devem ser criteriosamente respeitados, mesmo que haja prejuízo financeiro.

Durante uma aula de Ética e Relações no Trabalho em um Curso de Pós-graduação de Gestão de Pessoas onde lecionava, uma aluna, surpresa com a filosofia do capitalismo social lançou-me desafiadora a pergunta:

-Professor, existe esta empresa que pratica o capitalismo social?

COBIÇA - DINHEIROA surpresa e a dúvida da aluna é bastante procedente. Infelizmente temos que admitir que o nosso quadro é assustador! Vamos aos fatos: estamos em nono lugar na lista de países que mais geram acidentes do trabalho no mundo, são cerca de 500 mil registros ano! A Previdência gasta em média 10 bilhões de reais por ano com ocorrências que afastam os empregados por mais de 15 dias devido a acidentes de trabalho. Ao primeiro sinal de crise, o capitalismo selvagem reage e demite sumariamente um número enorme de trabalhadores, colocando na rua um contingente assustador de pais de família desempregados. Atualmente são cerca de quase 2 milhões em busca de emprego, representando aproximadamente 8% da população economicamente ativa. Dados da Justiça do Trabalho demonstram que em 2005 o passivo trabalhista, resultado do descumprimento das leis do trabalho e escravização da mão-de-obra gerou para o estado um custo anual em torno de 7 bilhões de reais com a tramitação de ações indenizatórias. Com o passar dos anos e o agravamento da crise, este valor provavelmente já tenha aumentado. O meio ambiente sofre ameaçadoramente com a destruição das florestas e o despejo indiscriminado de lixo, produtos químicos e gases contaminados na atmosfera. São toneladas e toneladas de produtos anualmente jogadas criminosamente nos rios, lagos, ares e mares, sem a mínima preocupação ambiental. Ufa! Deste jeito, onde vamos parar?…

MÃOS-TERRANo entanto, apesar deste cenário escabroso, alguns belos exemplos podem ser resgatados, algumas empresas iluminadas podem ser destacadas. São empresas que descobriram que investir em responsabilidade social, em desenvolvimento sustentável, segundo o princípio do “triple bottom line” (viés econômico, social e ambiental) é urgente e necessário para a sua sobrevivência e da humanidade e, além de tudo, gera retorno financeiro. São empresas como a Catterpillar, a Masa, a Volvo, o Laboratório Sabin, a Eurofarma e outras mais 100 ou 150 que fazem parte do relatório anual da revista Exame. Descobriram o ciclo virtuoso do mundo do trabalho: empregado que trabalha satisfeito aumenta a produtividade, se a produtividade aumenta, aumentam as vendas, se aumentam as vendas, aumenta-se o lucro, se o lucro é bem repartido para a sociedade de consumo, a demanda aumenta, se a demanda aumenta, as empresas vendem mais, se vendem mais, tem mais lucro e no final todos saem ganhando.

MONTEIRO LOBATOJá nos idos de 1948, Monteiro Lobato no seu belíssimo texto “Apelo aos Operários”, proclamava: “o verdadeiro objetivo de uma indústria não é ganhar dinheiro e sim o bem servir ao público, produzindo artigos de fabricação conscienciosa e vendendo-os pelos preços mais moderados possíveis…Quem não pensar assim prestará um verdadeiro serviço à empresa, ao público e aos seus colegas, devendo retirar-se…”

DOM HELDERQuiçá esta linha de raciocínio contamine todos os nossos empresários, formando um verdadeiro mutirão em busca do bem estar social! Utopia?! Vale relembrar uma famosa frase de D. Helder Câmara: “Gosto de pássaros que se apaixonam pelas estrelas e voam em sua direção até cair de cansaço!…

Sobretudo, precisamos de acreditar…