NEW PETS BENEFITS: HUMANIZAÇÃO DO AMBIENTE DE TRABALHO OU INVERSÃO DE VALORES?

A Revista Melhor, editada pela ABRH Brasil, na sua edição de outubro de 2016, divulgou uma matéria no mínimo questionável. A matéria afirma que algumas empresas estão investindo em um ambiente mais “humano”, com políticas de benefícios envolvendo os empregados que possuem bichos de estimação, os pets. Cita o exemplo da CA Technologies, uma empresa americana de tecnologia, onde os empregados que adotam um gato ou cachorro têm direito a três dias de licença remunerada para estreitar os laços com seu bichinho e em caso de morte do pet, até três dias de licença, para curtir o luto. A Gol Linhas Aéreas parece estar indo para o mesmo caminho. Nada contra os bichinhos de estimação, muito pelo contrário, os animais merecem todo nosso respeito, mas será que não está havendo uma enorme inversão de valores? Com tanta criança morrendo de fome neste mundão de Deus, não seria muito mais humano que estas empresas investissem em programas de adoção de crianças?…

PRECISA-SE DE MATÉRIA PRIMA PARA CONSTRUIR UM PAÍS

Vejo pelas ruas do nosso País uma multidão carregando faixas com a frase “Fora Temer”. Ok, assim funciona a democracia, mas me veio à lembrança um antigo texto atribuído ao saudoso João Ubaldo “Precisa-se de matéria-prima para construir um País”, escrito pelos idos de 2005, mas que parece-me bastante atual.

Por mais que os críticos insistam que a linha de raciocínio do texto é absurda por que atribui toda a culpa pelos problemas que estamos vivendo exclusivamente ao povo brasileiro, infelizmente, acredito que o seu conteúdo faz todo sentido. Evidentemente, que a abordagem não tem, absolutamente, por intuito inocentar os políticos corruptos, mas sim levar à uma reflexão profunda sobre o papel e a atitude de cada cidadão brasileiro no meio deste contexto deturpado. Será que a culpa está sempre do lado de lá? A culpa é sempre do outro? E eu, como estão minhas atitudes no dia a dia? Venda de votos a troco de um emprego na máquina pública ou de alguns sacos de cimento, compra de CD’s/DVD’s piratas, “gatos” de luz e TV a Cabo, saques de cargas nas estradas, estacionamentos em local proibido, “fezinha” no Jogo do Bicho, Nota Fiscal adulterada ou “fria”, etc., etc…É sempre bom, nestes momentos lembrar um pensamento atribuído à Platão: “Tente mover o mundo, o primeiro passo será mover a si mesmo”…

Vamos ao texto:

PRECISA-SE DE MATÉRIA PRIMA PARA CONSTRUIR UM PAÍS

A crença geral anterior era que Collor não servia, bem como Itamar e Fernando Henrique. Agora dizemos que Lula não serve. E o que vier depois de Lula também não servirá para nada. Por isso estou começando a suspeitar que o problema não está no ladrão corrupto que foi Collor, ou na farsa que é o Lula.

O problema está em nós. Nós como POVO. Nós como matéria prima de um país. Porque pertenço a um país onde a ESPERTEZA” é a moeda que sempre é valorizada, tanto ou mais do que o dólar. Um país onde ficar rico da noite para o dia é uma virtude mais apreciada do que formar uma família, baseada em valores e respeito aos demais.

Pertenço a um país onde, lamentavelmente, os jornais jamais poderão ser vendidos como em outros países, isto é, pondo umas caixas nas calçadas onde se paga por um só jornal E SE TIRA UM SÓ JORNAL, DEIXANDO OS DEMAIS ONDE ESTÃO.

Pertenço ao país onde as “EMPRESAS PRIVADAS” são papelarias particulares de seus empregados desonestos, que levam para casa, como se fosse correto, folhas de papel, lápis, canetas, clipes e tudo o que possa ser útil para o trabalho dos filhos… e para eles mesmos.

Pertenço a um país onde a gente se sente o máximo porque conseguiu “puxar” a tevê a cabo do vizinho, onde a gente frauda a declaração de imposto de renda para não pagar ou pagar menos impostos. Pertenço a um país onde a impontualidade é um hábito. Onde os diretores das empresas não valorizam o capital humano. Onde há pouco interesse pela ecologia, onde as pessoas atiram lixo nas ruas e depois reclamam do governo por não limpar os esgotos. Onde pessoas fazem “gatos” para roubar luz e água e nos queixamos de como esses serviços estão caros. Onde não existe a cultura pela leitura (exemplo maior nosso atual Presidente, que recentemente falou que é “muito chato ter que ler”) e não há consciência nem memória política, histórica nem econômica. Onde nossos congressistas trabalham dois dias por semana para aprovar projetos e leis que só servem para afundar ao que não tem, encher o saco ao que tem pouco e beneficiar só a alguns.

Pertenço a um país onde as carteiras de motorista e os certificados médicos podem ser “comprados”, sem fazer nenhum exame. Um país onde uma pessoa de idade avançada, ou uma mulher com uma criança nos braços, ou um inválido, fica em pé no ônibus, enquanto a pessoa que está sentada finge que dorme para não dar o lugar. Um país no qual a prioridade de passagem é para o carro e não para o pedestre. Um país onde fazemos  um monte de coisa errada, mas nos esbaldamos em criticar nossos governantes.

Quanto mais analiso os defeitos do Fernando Henrique e do Lula, melhor me sinto como pessoa, apesar de que ainda ontem “molhei” a mão de um guarda de trânsito para não ser multado. Quanto mais digo o quanto o Dirceu é culpado, melhor sou eu como brasileiro, apesar de ainda hoje de manhã passei para trás um cliente através de uma fraude, o que me ajudou a pagar algumas dívidas. Não. Não. Não. Já basta.

Como “Matéria Prima” de um país, temos muitas coisas boas, mas nos falta muito para sermos os homens e mulheres que nosso país precisa. Esses defeitos, essa “ESPERTEZA BRASILEIRA” congênita, essa desonestidade em pequena escala, que depois cresce e evolui até converter-se em casos de escândalo, essa falta de qualidade humana, mais do que Collor, Itamar, Fernando Henrique ou Lula, é que é real e honestamente ruim, porque todos eles são brasileiros como nós, ELEITOS POR NÓS. Nascidos aqui, não em outra parte… Me entristeço. Porque, ainda que Lula renunciasse hoje mesmo, o próximo presidente que o suceder terá que continuar trabalhando com a mesma matéria prima defeituosa que, como povo, somos nós mesmos. E não poderá fazer nada… Não tenho nenhuma garantia de que alguém o possa fazer melhor, mas enquanto alguém não sinalizar um caminho destinado a erradicar primeiro os vícios que temos como povo, ninguém servirá. Nem serviu Collor, nem serviu Itamar, não serviu Fernando Henrique, e nem serve Lula, nem servirá o que vier. Qual é a alternativa?

Precisamos de mais um ditador, para que nos faça cumprir a lei com a força e por meio do terror? Aqui faz falta outra coisa. E enquanto essa “outra coisa” não comece a surgir de baixo para cima, ou de cima para baixo, ou do centro para os lados, ou como queiram, seguiremos igualmente condenados, igualmente estancados….igualmente sacaneados!!!

É muito gostoso ser brasileiro. Mas quando essa brasilinidade autóctone começa a ser um empecilho às nossas possibilidades de desenvolvimento como Nação, aí a coisa muda… Não esperemos acender uma vela a todos os Santos, a ver se nos mandam um Messias. Nós temos que mudar, um novo governador com os mesmos brasileiros não poderá fazer nada. Está muito claro. Somos nós os que temos que mudar.

Sim, creio que isto encaixa muito bem em tudo o que anda nos acontecendo: desculpamos a mediocridade mediante programas de televisão nefastos e francamente tolerantes com o fracasso. É a indústria da desculpa e da estupidez. Agora, depois desta mensagem, francamente decidi procurar o responsável, não para castigá-lo, senão para exigir-lhe (sim, exigir-lhe) que melhore seu comportamento e que não se faça de surdo, de desentendido.

Sim, decidi procurar o responsável e ESTOU SEGURO QUE O ENCONTRAREI QUANDO ME OLHAR NO ESPELHO. AÍ ESTÁ. NÃO PRECISO PROCURÁ-LO EM OUTRO LADO.

E você, o que pensa? MEDITE!!

 

 

FUNDAMENTALISMO DE EXTREMA DIREITA

bolsonaroJá tive oportunidade de discorrer sobre este assunto em outras ocasiões, mas nunca é demais insistir. Nos últimos tempos, tenho ouvido diversos comentários de alguns “xiitas” e jovens menos avisados, defendendo a candidatura do Deputado fundamentalista de extrema direita Jair Bolsonaro para a Presidência da República .  É fato que, infelizmente, a nossa classe política caiu em um profundo descrédito, em função da corrupção que tomou conta dos meios parlamentares, mas isto não pode e não deve, de forma alguma, ser tomado como pretexto para soluções precipitadas e absurdas, com risco de voltarmos aos tempos de chumbo da ditadura. Os fantasmas do Jornalista Vladmir Herzog, enforcado em uma cela do DOI-CODI e do desaparecido Deputado Rubens Paiva, abduzido subitamente pelos milicos durante um jantar em família no Rio de Janeiro, entre muitos outros, estão aí para nos lembrar dos perigos de um governo totalitário. Uma vez assumido o poder, salve-se sem puder! Os primeiros a serem pendurados no pau-de-arara ou desaparecerem sumariamente do pedaço serão os mesmos que hoje defendem de cara limpa a chegada dos militares ao poder, entre eles, alguns jovens inconformados com o sistema atual.

Infelizmente, tenho observado que muita gente boa vem sendo enganada pelo discurso extremista do citado parlamentar, sub-repticiamente travestido de defensor da integridade e dos elevados valores familiares. No entanto, suas suas idéias absurdas e atitudes extremadas despontam de forma contundente; é só parar um pouco e observar. Vejamos algumas amostras que merecem todo nosso repúdio e descarte:

“Pinochet deveria ter matado mais gente!” (Revista veja, 1998).

‘Eu defendo a tortura. Um traficante que age nas ruas contra nossos filhos tem que ser colocado no pau-de-arara imediatamente. Não tem direitos humanos nesse caso. É pau-de-arara, porrada. Para sequestrador, a mesma coisa. O cara tem que ser arrebentado para abrir o bico” . (Defendendo a tortura e o pau-de-arara da época da Ditadura Militar, 2000).

“Não vou combater nem discriminar, mas se eu vir dois homens se beijando na rua, vou bater” (Após caçoar de FHC sobre este segurar uma bandeira com as cores do arco-íris, 2002)

“Seria incapaz de amar um filho homosssexual. Prefiro que um filho morra num acidente do que pareça com um bigodudo por aí” (Revista Playboy, 2011).”

“Eu não corro esse risco, meus filhos são bem educados” (Em conversa com Preta Gil, quando questionado sobre o que faria se seus filhos se relacionassem com uma mulher negra ou com homossexuais, 2011).

“Parlamentar não deve andar de ônibus”. (Jornal  “O Dia”, 2013).

“Não te estupro por que você não merece”.  (Em discussão com a Deputada Federal Maria do Rosário, 2014)

“Você é uma idiota. Você é uma analfabeta. Está censurada!”  (Declaração irritada ao ser entrevistado pela repórter Manuela Borges, da Rede TV, 2014).

“Mulher deve ganhar salário menor por que engravida.  Quando ela voltar da licença-maternidade, vai ter mais um mês de férias, ou seja, trabalhou cinco meses em um ano”. (Jornal “Zero Hora, 2015).

“O erro da ditadura foi torturar e não matar”. (Programa Pânico na TV, julho de 2016).

“A PM devia ter matado 1.000 e não 111 presos. onde é que isso esta errado? Foram 111 lixos mortos que estavam cumprindo pena por crime hendiondo, se ficaram chocadinhos, sugiro adotar algum ex-presidiario”. (Sobre o Massacre do Carandiru, 2016).

“Sou Capitão do Exército, conhecia e era amigo do Coronel, sou amigo da viúva. O Coronel Carlos Brilhante Alberto Ustra recebeu a mais alta comenda do Exército, a Medalha do Pacificador, é um herói brasileiro”. (2016 – O Coronel Ustra é considerado um dos maiores símbolos da repressão e tortura da ditadura militar)

Para aqueles que andam simpatizando com as idéias do Deputado, é bom lembrar que Hitler com o nazismo e Mussolini com o fascismo que ceifaram milhões de vidas e aterrorizaram o mundo começaram assim.

Zygmunt Bauman, um famoso sociólogo e filósofo polonês, recém falecido, muito acertadamente nos alerta: “O problema não é o número crescente, em vários países, de pretendentes a regimes autoritários, mas do ainda mais rápido crescimento de seus devotos e apoiadores… Não é uma questão sobre os que querem o poder (eles sempre serão muitos, já que a demanda  popular por eles é abundante), mas sobre a ampliação da demanda pelos serviços que eles falsamente prometem, que constitui indiscutivelmente o mais perigoso dos desafios futuros”… Quem tem ouvidos que ouça!

De radicalismo, extremismo, racismo e ódio  o mundo já está cheio. O que definitivamente não precisamos é de um novo Hitler para resolver os problemas da humanidade. Depois  não adianta o “chorar o leite derramado”…

 

 

 

 

O “X” DA QUESTÃO

o-x-da-questaoAs notícias na mídia informam que a Operação Lava-Jato decretou a prisão de Eike Batista e ele está foragido da justiça, acusado de lavagem de dinheiro, ocultando US$100 milhões no exterior. Por uma triste coincidência, tenho em minhas mãos, neste momento, um exemplar do livro “O X da questão – A trajetória do maior empreendedor do Brasil”, da Editora Sextante de 2011. No capítulo 34 intitulado “A Cartilha da Ética”, Eike Batista afirma categoricamente: “Há empresários que operam 100% dentro da cartilha da ética. Sou um deles e faço questão de me manter assim. Há alguns anos, assinei um dos cheques de valor mais alto do mundo a título de pagamento de imposto já honrado por uma pessoa física. Foi recolhido ao Tesouro Nacional valor equivalente a US$450 milhões por conta do que recebi na operação da MMX com a Anglo American. Nem sequer havia no Rio de Janeiro caixa registradora que computasse todos os zeros do cheque. Parece brincadeira, mas fui obrigado a me dirigir a São Paulo para que o cheque fosse liberado. Foram mais de R$700 milhões quando se de a conversão para reais. Espero que esse tipo de comportamento inspire as pessoas a devolver à sociedade o que esta mesma sociedade proporciona no dia a dia de sues negócios. Quem age com correção acaba recompensado de uma forma ou de outra”. Se este é o maior empreendedor do Brasil e reza estritamente pela Cartilha da Ética servindo de exemplo, como ele mesmo disse, o que dizer dos demais? É realmente catastrófico ver isto tudo acontecendo! Do jeito que as coisas estão indo, onde vamos parar? Que Deus nos acuda!

A FALÊNCIA DO SISTEMA DE ENSINO-APRENDIZAGEM BRASILEIRO E A TEORIA DA REPRODUÇÃO – VIOLÊNCIA SIMBÓLICA

enem-iiSegundo Gustavo Ioschpe no seu livro “O Que o Brasil Quer Ser Quando Crescer?”, o último levantamento do INAF (Indicador Nacional de Alfabetismo Funcional realizado pelo Instituto Paulo Montenegro) mostrou que apenas 26% da população brasileira de 15 a 64 anos é plenamente alfabetizada. Isto significa que três quartos da nossa população não seriam capazes de ler e compreender um texto como este. Na Matemática, a situação é igualmente desoladora: só 23%, segundo o mesmo INAF, consegue resolver um problema matemático que envolva mais de uma operação, e apenas esse mesmo grupo tem capacidade para entender gráficos e tabelas.

Recentemente, os resultados demonstraram que 6,1 milhões de inscritos no ENEM, apenas 77 conseguiram nota máxima na Redação e 300 mil tiraram nota zero!

Sem dúvidas, os resultados são assustadores! Surge então uma pergunta que não quer se calar: onde está o problema?

Meus estudos e reflexões, influenciados pela minha Tese de Mestrado em Ciências da Educação em desenvolvimento, me levam a concluir que, longe de única e simplesmente, de forma imediatista, depositar a culpa nos nossos jovens, a causa fundamental do problema está relacionada a dois fatores fundamentais: a qualidade do ensino e os sistemas de avaliação de aprendizagem vigentes.

Comprovadamente a qualidade do nosso sistema de ensino, de uma forma geral, é ruim, evidentemente, sem considerar as ilhas reservadas aos filhos das elites, que frequentam as melhores escolas, sustentadas por mensalidades polpudas! Da infraestrutura à qualidade da mão-de-obra e à metodologia, temos muito que melhorar. É um número muito grande de escolas sem o mínimo de condições físicas para funcionar: faltam sistemas adequados de transporte, mesas, carteiras, refeitórios, alimentação adequada, banheiros, materiais didáticos e, em algumas delas, até mesmo teto. Sem contar as condições de segurança, com os alunos vivendo em meio à criminalidade e tiroteios cerrados. O investimento no desenvolvimento de nossos professores é mínimo e o reconhecimento, tanto em forma de remuneração como de valorização do trabalho, é o mais baixo de todos em relação às profissões consideradas nobres. Como se não bastasse, o sistema de ensino-aprendizagem segue a metodologia da “educaçãopaulo-freire-ii
bancária”, tão fortemente combatida por Paulo Freire, considerado o Pai da educação brasileira, onde os alunos, de forma passiva, são meros depositários das verdades absolutas ditas pelos professores em sala de aula. Vale lembrar aqui um dos seus preciosos ensinamentos: “Ensinar não é transferir conhecimento, mas criar as possibilidades para a sua própria produção ou a sua construção”.

Depois de passar por esta “via crucis”, no final do grande ciclo (ou “circo”) vem o ENEM, com a adoção de um sistema de avaliação somativo, aterrorizante, eliminatório e excludente, onde sempre os filhos das elites são os melhores classificados e aprovados com as melhores notas e os demais, pertencentes às classes oprimidas, são descartados. As estatísticas demonstram claramente este fato.

pierre-bourdieuPierre Bourdieu, (1930-2002), um famoso estudioso francês da da área de educação, a este fenômeno denominava de “Teoria da Reprodução”, onde, através da educação, o sistema reproduz o sistema de castas. É o que ele chamava de violência simbólica. Aos privilegiados, as melhores escolas, os melhores cursos, as melhores profissões, os melhores salários e, consequentemente, as melhores condições sociais, aos demais, as piores escolas, os piores cursos, quando conseguem frequentar, as piores profissões, quando encontram trabalho, o subemprego e a marginalidade. E assim o ciclo se reproduz indefinidamente.

Os resultados negativos do ENEM nada mais são do que a formalização de um certificado da falência do sistema de ensino-aprendizagem institucionalizado. Os pobres alunos expostos à humilhação pública são muito mais vítimas do que culpados. O controle do processo  com um sistema de avaliação ao final da linha só serve de mero instrumento para a constatação óbvia de uma série de derrotas cultivadas ao longo da vida estudantil dos reprovados, condenados à vala dos derrotados. Recordando Bourdieu: Nada é mais adequado que o exame para inspirar o reconhecimento dos vereditos escolares e das hierarquias sociais que eles legitimam”.

FUNDO DO POÇO II! ACORDA FOZ DO IGUAÇU!

aniceParece brincadeira, mas infelizmente é verdade! Agora foi a vez de Anice Gazaoui, presa pela Polícia Federal desde dezembro de 2016, na Operação Pecúlio, tomar posse como Vereadora, em Foz do Iguaçu. Saiu da cadeia escoltada por policiais, tomou posse e imediatamente voltou para trás das grades. Ela e outros onze vereadores são acusados de receber propina e de fazer indicações de nomes para cargos na prefeitura e em empresas contratadas pela administração municipal. Deste total, dez permanecem presos. Certamente, como no caso do seu colega Vereador Ronilson, de Caratinga, também preso, ela continuará recebendo os polpudos salários. Só no Brasil! É triste, mas é verdade! Acorda Foz do Iguaçu!

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UM TRIBUTO ÀS MARIAS MALAGUETAS

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Sempre fui um admirador de Ouro Preto e da cultura dominante nas repúblicas de estudantes desta cidade. Na década de 70, quando concluí o Curso de Técnico de Mineração na Escola Técnica Federal de Ouro Preto, meu sonho era fazer engenharia e morar em uma destas repúblicas. Os anos se passaram, me direcionei para outros caminhos e não pude realizar o meu sonho. No entanto, nos últimos anos, fui agraciado com a oportunidade de curtir um pouco este clima através da minha filha que se formou em Engenharia Geológica e morou em uma delas, com um detalhe, formada exclusivamente por meninas, e que belas meninas, as Marias Malaguetas!

malagueta-10-anosNo dia 12/11/16 a República Maria Malagueta, completou seus dez anos de existência e teve seu aniversário comemorado em alto estilo. Ex-moradoras e moradoras se reuniram, com a presença de familiares e amigos, entre eles eu, minha esposa e minha outra filha, para festejar o momento. É realmente gratificante observar o espírito de companheirismo, alegria e descontração que reina entre as meninas; a começar pelos apelidos, os mais engraçados que se possa imaginar, cada um com uma origem mais interessante do que o outro.

Primeiro surgem a Elis – a Sinhá e a Ana Paula – PitPow! A primeira herdou o apelido devido ao forte sotaque interiorano da região de Itabira. Natural de Itambé de Minas, uma cidade encravada no meio de uma região belíssima, cercada de muito verde, montanhas e cachoeiras, ela foi uma das protagonistas de toda a história. Sou caipira, pirapora, com muito orgulho e por que não! Santa Sinhá!

A segunda, a PitPow! foi assim alcunhada devido a estopim curto e à forma explosiva de resolver as coisas. Coitado de quem discordasse dela! Maldade! Nem tanto! Ambas, apoiadas pela minha filha Alice, que estranhamente não colou com nenhum apelido, apesar de várias tentativas, entre elas a de Vovozona, por que adorava vestir um “pijama do vovô” e tomar xarope de limão e alho para gripe, foram as fundadoras da República e hoje funcionam como uma espécie de conselheiras, irmãs mais velhas das moradoras atuais.

O tempo foi passando e a “família Malagueta” foi, ano a ano, aumentando devagar. As três fundadoras, logo em seguida atraíram  a Emanuelle – Manu. Como o povo brasileiro tem mania de abreviar os nomes das pessoas, este apelido não carece de maiores explicações.

Em seguida foi chegando um quarteto de primeira: a Rosane, irmã da PitPow!, apelidada de Bozena, a Larissa, apelidada de Vitrola , Aylime, prima-irmã da Sinhá, apelidada de “Olho Junto” e a Gabriela, apelidada de Lady.

A Bozena herdou o apelido de uma personagem interpretada pela Alessandra Maestrini no seriado “Toma lá, dá cá”. A menina tinha mania de contar longas histórias de sua terra natal, Guiricema;  não importava o momento ou o lugar onde estivesse, e ai de quem não se dispusesse a ouvi-la…

A Larissa, segundo diziam a más línguas, parece que tinha engolido uma Vitrola! Adorava cantar, nem precisava ligar o rádio ou o aparelho de som; o show era ao vivo e a cores. Daí o apelido.

A “Olho Junto”recebeu o apelido, segundo dizem, por causa da maneira crítica de analisar as coisas, com o seu jeito astuto, sorrateiro, incomodando as colegas. Como uma forma de vingança, arrumaram este apelido para a menina. Vale considerar que “olho junto” é uma expressão popular utilizada para caracterizar pessoas maldosas, de mau caráter, relacionando-os com os animais predadores, que possuem os olhos juntos e destroem suas vítimas. Aiaiaiaiai! Dá para sentir o quanto são picantes estas malaguetas! Pergunto-me como ela aguentou ficar por lá!…

A Lady foi assim chamada fazendo uma menção à Lady Gaga, só que com uma corruptela depreciativa referente ao nome Gaga, relacionada a sua saúde intestinal. Os motivos, por questões de “segredos de estado”, não podem ser aqui relatados. O fato é que o apelido dá margem para uma boa sessão de risadas durante as reuniões festivas da moçada.

Por esta época chegou por lá o Ubiratan – Bira, namorado da Manu. O menino, natural de Goiás, estava sem mãe, sem pai e sem teto, perdido em Ouro Preto e as caridosas meninas, depois dos rogos da Manu e muitas reuniões, resolveram acolhê-lo. O “bendito é o fruto” se deu bem entre as mulheres, quebrando o galho delas com os pequenos arranjos domiciliares e, sem preconceito nem pudor, passou a fazer parte do time com maestria, colocando ordem na casa.

Algum tempo depois chegou a Sara, apelidada de “Seu Creysson”. Seu Creysson é um personagem hilário criado pelo “Casseta e Planeta”, cuja principal característica é um sotaque mineirês forte e o modo “errádio” de falar. A pobre menina cometeu alguns pequenos deslizes vocabulares logo na chegada à República e as colegas, sem dó nem piedade, com toda a ardência, não deixaram por menos; sapecaram o apelido.

Enfim, por último, chegou uma última dupla de peso: a Fernanda – Sócya e a Gabriela – Pedynte. A primeira, a Sócya, herdou o apelido por que vivia deixando as luzes acesas, segundo diziam, para aumentar o faturamento da Cemig. Imaginem! Até uma sócia da Cemig foi parar na Malagueta! A outra, a Pedynte, por que, segundo os comentários picantes das meninas, quase quebrava os pais de tanto pedir as coisas. Os velhos não tinham folga! Santa maldade!

Dez anos se passaram e foi formado o time, e que time de peso! É só observar a foto para sentir a dimensão do peso! Certamente, a garra, a alegria, o companheirismo e a “picância” destas meninas vão ainda inspirar muitas outras Marias Malaguetas por várias gerações futuras. Quem sabe, como acontece sempre nas Repúblicas ouropretanas, no futuro alguma pimentinha, herdeira das atuais Marias Malaguetas ainda passem por lá?…

Que Deus abençoe!

malaguetas