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ALGUMAS REFLEXÕES SOBRE O CASO SAMARCO

BARRAGEMDurante 05 anos consecutivos, de 2011 a 2015 a Samarco Mineração S/A foi eleita a melhor mineradora do Brasil pelo anuário Melhores e Maiores da Revista Exame.
Em 2014 foi classificada pelo Guia Você S/A entre as 150 melhores empresas para se trabalhar no Brasil e conquistou o Prêmio Findes/SENAI de Meio Ambiente, Selo Ouro. No mesmo ano ainda conquistou o Prêmio Green Mine concedido pela Revista In The Mine.
Em 2013 conquistou o Prêmio Época Empresa Verde promovido pela Revista Época e em 2012 o Prêmio Empresa do Ano na Categoria Mineração de Grande Porte pela Revista Brasil Mineral. Em 2011 foi considerada a melhor mineradora e a segunda maior mineradora do Brasil pela Revista Exame.
Estes e outros inúmeros prêmios fizeram parte do rol de conquistas alcançadas pela mineradora durante os últimos anos. Todas estas premiações a credenciavam como benchmark em termos de gestão econômica, social e ambiental.
Na íntegra, a Samarco traz estampado em seu site oficial que sua Missão é produzir e fornecer pelotas de minério de ferro, aplicando tecnologia de forma intensiva para otimizar o uso de recursos naturais e gerando desenvolvimento econômico e social, com respeito ao meio ambiente. Afirma que acredita e pratica a mineração responsável, por meio de seus pilares de gestão: excelência, para fazer sempre mais e melhor; crescimento, visando gerar e compartilhar valor com solidez e competência e conformidade, para se manter sempre em sintonia com as diretrizes, normas e leis e que tem em seu DNA a participação no desenvolvimento das comunidades vizinhas, a construção de relação de confiança com os parceiros, e, acima de tudo, o respeito à vida. Como valores está estampado o respeito às pessoas, a integridade e a mobilização para resultados.
Com isto tudo, nunca era de se esperar que uma empresa com estas credenciais fosse responsável pelo maior desastre ambiental da história brasileira e o maior do mundo envolvendo barragens de rejeito. Na tarde do dia 05 de novembro de 2015, a Barragem de Fundão, construída para receber seus rejeitos operacionais, com um montante estimado em torno de 45 milhões de toneladas, rompeu-se provocando a morte de 19 pessoas, destruindo em sua totalidade Bento Rodrigues, município cerca de 2,5 quilômetros abaixo da barragem pertencente à Mariana. Em seu caminho de destruição, a lama chegou ao Rio Doce indo em direção ao mar, atingindo de forma traumática 230 municípios dos Estados de Minas Gerais e Espírito Santo, muitos dos quais com suas populações abastecidas com a água do rio, levando alguns ao estado de calamidade pública.
“Não foi acidente, não foi fatalidade. O que houve foi um erro na operação e negligência no monitoramento”, afirmou na época Carlos Eduardo Pinto, Promotor de Justiça do Meio Ambiente.
O desastre foi tão grande que virou notícia mundial, tomando conta da mídia internacional. Líderes ambientalistas do mundo inteiro se manifestaram, acusando de forma veemente a irresponsabilidade e o descaso da Samarco com o meio ambiente e com a sociedade.
Ambientalistas consideraram que o efeito dos rejeitos no mar continuará por pelo menos mais 100 anos. A Consultoria Norte-Americana Bowker Associates – consultoria de gestão de riscos relativos à construção pesada, avaliou o investimento necessário para reposição das perdas ocasionadas pelo desastre em US$ 5,2 bilhões.
Em 20/01/2016, o Diretor-Presidente Ricardo Vescovi e o Diretor de Operações Kleber Terra pediram licença temporária (ou foram afastados?) de seus cargos para se dedicar às suas defesas, frente a um turbilhão de acusações e até pedidos de prisão.
Até a presente data, após cerca de 05 meses da ocorrência do desastre, a Samarco continua com suas operações suspensas por determinação judicial. O final desta trágica e triste história ainda está por se desenrolar.
Apesar das fortes evidências de que houve realmente um acidente, portanto evitável, a empresa afirma que não tinha conhecimento do risco iminente do rompimento da barragem. O fato é que ficam algumas perguntas no ar.
Se a empresa não tinha conhecimento, por que o seu corpo técnico considerado de elevadíssima performance e as consultorias de renome que prestavam serviço para ela, não identificaram o risco? Será que estes atores foram tão incompetentes a ponto de não conseguir identificar este risco?
Se ela tinha conhecimento, por que não tomou as devidas providências para evitar a catástrofe? Será que a busca maquiavélica do capital pelo lucro desenfreado falou mais alto que o respeito ao ser humano e à natureza, contrariando frontalmente sua Missão, Visão e Valores Organizacionais? .
Independentemente destes questionamentos, de qualquer forma, agora não adianta ficar chorando o mar de lama derramada. O que se esperava da empresa é que tomasse de forma rápida, objetiva, consistente e sustentável medidas mitigadoras e compensatórias robustas para minimizar os estragos catastróficos causados. O problema é que, infelizmente, pelo que vem sendo apresentado de forma exaustiva pela mídia, isto não está acontecendo, o que é realmente uma enorme lástima, pois seria uma grande oportunidade para se redimir perante seus stakeholders do seu enorme erro cometido e voltar à ativa!
Que esta catastrófica ocorrência sirva de lição para as gerações atuais e futuras sobre a necessidade imediata e imperiosa de cuidar bem da “nossa casa” ou todos estaremos fadados à autodestruição. Que a natureza e o respeito ao ser humano nunca sejam colocados em segundo plano frente ao capitalismo selvagem e a busca maquiavélica pelo lucro descontrolado.

A TRAGÉDIA EM MARIANA: DISCURSO DO PREFEITO DUARTE JÚNIOR NA COP 21 EM PARIS

DUARTE JÚNIORBelíssima a fala do Prefeito de Mariana Duarte Júnior na COP 21 em Paris. Como ele disse, “Não podemos mais ver nosso planeta morrer sufocado pelo aquecimento global, sendo corroído pelo câncer do desmatamento, gemendo pelos coágulos das barragens e aceitar passivamente um planeta doente.
Somos todos responsáveis…”

Aproveitando o espírito natalino, que esta tragédia sirva de reflexão e lição para uma mudança radical em termos de sustentabilidade, espiritualidade e consciência global.
Vejam na íntegra descrição do discurso:

“Com muita dor estou aqui hoje na França, na COP21, representando a primeira capital do estado de Minas Gerais. Cidade com uma história e arquitetura digna de ser respeitada e reconhecida como patrimônio da humanidade, algo que injustamente ainda não foi feito pela Unesco.
Uma história que produziu riquezas não só para Mariana, mas para toda humanidade. De 1800 a 1850, metade do ouro que era destinado para a Europa saiu de Mariana, e hoje, o nosso minério de ferro cobre o mundo. Com todo respeito e temor a Deus neste momento tenho consciência que sou a voz do pai da Emanuele, que foi literalmente arrancada dos braços dele por uma onda de lama.
No meu coração grita a voz dessa criança, que teve seu passado, presente e futuro engolidos por essa lama que seria apenas de rejeitos de minério de ferro, mas se tornou em uma lama carregada de dor, tristeza e incerteza. Essa lama apagou a comunidade de Bento Rodrigues do mapa, mas não de nossos corações.
Que essa lama desperte em todos nós o desejo de limpar nossos corações e almas de toda ganância, de todo egoísmo, amor ao dinheiro, que não nos deixa ver o futuro. Escolho essa criança para simbolizar todas as vítimas, pois na morte de uma criança morre todo um futuro. Não podemos mais ver nosso planeta morrer sufocado pelo aquecimento global, sendo corroído pelo câncer do desmatamento, gemendo pelos coágulos das barragens e aceitar passivamente um planeta doente.
A lama que tem invadido a humanidade não é apenas a lama da Mineradora Samarco, é a lama do consumismo desenfreado e desequilibrado. Somos todos responsáveis pela exploração em grande escala do minério de ferro, do petróleo, das madeiras encontradas cada vez em menor número na Floresta Amazônica do meu amado país, o Brasil.
Observei, nesse contexto, com muita tristeza, os atentados que aconteceram aqui França. Não podemos aceitar a mesma intolerância irracional retroalimentada silenciosamente pelos radicais, que se expressam através de terroristas suicidas e suas ações bárbaras chocando nações, vítimas de seus atentados e mobilizando o mundo contra os seus atos. Posto aqui, sem hesitar e sem medo de errar, que o planeta também comunga desse sentimento de reprovação e indignação. Só que, no caso do planeta, esse sentimento de repulsa se dá contra toda a humanidade, que vem atentando de forma suicida contra o planeta. Sim, hoje todos nós temos um pouco de terrorista, que cometemos ou nos omitimos, e permitimos que se cometam atentados suicidas no mundo. E essa intolerância radical da humanidade é alimentada, grande parte das vezes, por mais lucros.
Como fala o próprio Deus através do nosso amado Apóstolo Paulo na carta aos Romanos: “A criação geme com dores de parto”. Não podemos ignorar todo o meio ambiente olhando somente para o conforto de nossos ambientes particulares. Nós marianenses sabemos melhor que ninguém como é importante e bom ser rico em recursos naturais! Somos gratos a Deus pelos recursos naturais e reconhecemos a importância da mineração.
Sabemos dos benefícios na economia e na qualidade de vida. Não sou contra a mineração e nem contra empresas mineradoras. Sou contra o desequilíbrio, sou contra a má distribuição dos lucros, sou contra viver o presente matando o futuro, sou contra a ganância. Nada sem equilíbrio permanece em pé.
Precisamos urgentemente de equilibrarmos com o meio ambiente. Tornamo-nos literalmente pesados para natureza e ela não está suportando mais. Temos que pensar e agir como pessoas movidas por sabedoria e não por instinto. Hoje sou a voz das vitimas, voz de uma cidade dependente da mineração, voz de uma cidade que acordou em favor do meio ambiente.
Aprendi que às vezes quando tudo dá errado, acontecem coisas maravilhosas que jamais aconteceriam se tudo tivesse dado certo. Com essa visão, quero em meio a toda essa lama que matou pessoas, peixes, tartarugas marinhas, aves, plantas e rios; em meio a toda essa morte quero enxergar vida, ver uma nova forma de fazer barragens, uma forma de se reciclar o rejeito, uma forma de diversificar a economia, uma nova forma de se viver o presente sem esquecer o futuro.
Nossa intenção agora é buscar parceiros que queiram ir para a primeira cidade das Minas Gerais, buscar parceiros que amam o meio ambiente, empresas que queiram ajudar a cidade a ser um exemplo para o mundo em desenvolvimento sustentável!
Como uma águia que vê lá na frente e que olha por cima das nuvens, vejo um belo horizonte, olho e vejo um novo Bento, vejo uma nova Paracatu, vejo uma nova Mariana com amor e respeito pelo meio ambiente! Vejo um planeta bem melhor! É nosso dever defender e preservar o meio ambiente, criado e entregue por Deus para desfrute e uso comum de todos os seres vivos!
Quero agradecer a Deus por ter nos dado força nos momentos mais difíceis, a cada pessoa que nos ajudou de alguma forma e também ao povo marianense pelo exemplo de garra e hombridade! Deus abençoe a todos!”

SAMARCO EM XEQUE: A ÉTICA, A RESPONSABILIDADE SOCIAL E O ROMPIMENTO DAS BARRAGENS

BARRAGEMA notícia do rompimento das barragens da Samarco tomou conta, de forma trágica e alarmante, nos últimos dias, do noticiário nacional. A catástrofe atingiu proporções incomensuráveis, deixando um rastro de destruição e terror por todos os locais onde a lama proveniente do rompimento passa, contaminando rios e matas e atravessando dois Estados, até chegar ao mar. Os impactos profundos não se restringiram apenas aos aspectos ambientais, mas também aos econômicos, políticos e sociais. O povoado de Bento Rodrigues, o mais próximo das barragens e traumaticamente o mais impactado, sumiu do mapa. A população foi surpreendida com um dilúvio de lama sem ter tempo para escapar. Várias pessoas morreram enlameadas e os remanescentes, em desespero, perderam tudo que tinham e ficaram sem lugar para morar. No meio disto tudo, a empresa agoniza, sendo energicamente atacada por todos os lados. Alguns já dizem que dificilmente ela irá sobreviver e voltar a operar, tamanho o desafio que terá de enfrentar.
No meio deste turbilhão, uma das questões que chama a atenção nisto tudo é o fato de a Samarco durante longos anos ter sido considerada uma das melhores empresas para se trabalhar no País. Em 2015 foi eleita pela quinta vez – sendo o terceiro ano consecutivo – a melhor mineradora do Brasil pelo anuário “Melhores e Maiores” da Revista Exame. Suas crenças e valores foram proclamadas em destaque. Vale a pena abrir aqui um espaço para transcrever na íntegra o que consta em seu site, falando em termos de Missão, Visão e Valores Organizacionais. Tomei a iniciativa de incluir alguns negritos para dar mais ênfase aso aspectos fundamentais.

A Samarco acredita e pratica a mineração responsável, por meio de seus pilares de gestão: Excelência, para fazer sempre mais e melhor; Crescimento, visando gerar e compartilhar valor com solidez e competência; e Conformidade, para nos manter sempre em sintonia com as diretrizes, normas e leis. Temos em nosso DNA a participação no desenvolvimento das comunidades vizinhas, a construção de relação de confiança com nossos parceiros, e, acima de tudo, o respeito à vida. Esses conceitos sintetizam os objetivos traçados em nossa Missão, Visão e Valores organizacionais, garantindo que o desenvolvimento da Samarco se reflita também nas regiões onde atuamos e com os públicos com os quais nos relacionamos.

Missão:
Produzir e fornecer pelotas de minério de ferro, aplicando tecnologia de forma intensiva para otimizar o uso de recursos naturais e gerando desenvolvimento econômico e social, com respeito ao meio ambiente.
Visão 2022:
Dobrar o valor da empresa e ser reconhecida por empregados, clientes e sociedade como a melhor do setor.
Valores:
Respeito às pessoas
Prezamos pela vida acima de quaisquer resultados e bens materiais. Respeitamos o direito à individualidade, sem discriminação de qualquer natureza, e honramos, com nossa responsabilidade, o bem-estar das pessoas e da sociedade, assim como o cuidado com o meio ambiente, por meio da utilização correta dos recursos necessários às nossas atividades.
Acreditamos em nosso papel influenciador e contributivo para o desenvolvimento social e econômico do País, visando ao futuro das próximas gerações.
Integridade
Atuamos com seriedade no cumprimento às leis e respeito aos princípios morais, primando pela dignidade e ética nas relações. Adotamos uma postura honesta e transparente com todas as partes envolvidas em nosso negócio.
Mobilização para resultados
Gostamos de superar os objetivos e metas estabelecidos e temos perseverança em fazer melhor a cada dia, com criatividade, cooperação e simplicidade, buscando constantemente o conhecimento e a geração de ideias inovadoras, para o atingimento de resultados diferenciados e duradouros.

Uau! Não são necessário maiores comentários sobre a magnitude e a profundidade do descrito em termos de valorização e respeito aos seus empregados, às pessoas, às comunidades, à legislação, à vida e ao meio-ambiente, além da propagada “Competência e Excelência, para fazer sempre mais e melhor”.

Mediante tudo isto, fica no ar uma pergunta que não quer se calar: se isto tudo dito acima é verdade, o que aconteceu com a Samarco?

As teorias em termos de gestão de responsabilidade social afirmam que as empresas podem ser enquadradadas em quatro grandes grupos:

High-Profile: são empresas que estão profundamente preocupadas com o aspecto socioambiental, investem pesadamente neste aspecto e divulgam o que fazem.

Low-Profile: são empresas que estão profundamente preocupadas com o aspecto socioambiental, investem pesadamente neste aspecto, mas não divulgam o que fazem.

No-Profile: são empresas que não estão preocupadas com o aspecto socioambiental, não investem neste aspecto, mas também não divulgam que fazem.

False-Profile ou Green-Washing: são empresas que somente aparentam estar preocupadas com o aspecto socioambiental, mas verdadeiramente não investem e não estão preocupadas com este aspecto, no entanto divulgam em altos brados que acreditam e fazem. No fundo estão realmente preocupadas com o lucro obsessivo e imediato. Travestem-se de “verde” para manter as aparências e maximizar cada vez mais os lucros de acionistas insanos e insensatos.

A questão que a Samarco tem a responder neste momento é em qual destes grupos ela verdadeiramente se enquadra. Apesar da tragédia e da colossal falha em vias de ser comprovada, se ela conseguir transformar seu belo discurso em ações efetivas, rápidas e práticas e provar que é de fato uma “high-profile”, poderá sobreviver e sair deste furacão mais fortalecida e preparada. A seu favor, alguns empregados e membros das comunidades envolvidas, preocupados com o futuro ainda pior caso a empresa seja destivada, já estão se movimentando em sua defesa, de forma espontânea e bem embasada.

Vejamos e aprendamos com o desenrolar dos fatos.

Que Deus dê esperança e conforto a todas as vítimas da tragédia e ilumine o caminho dos líderes e das autoridades responsáveis para encontrar o melhor caminho para mitigar os efeitos de tamanha calamidade.

SUSTENTABILIDADE: OS 3P’S E 1S

3 P'S 1SMuito se tem falado sobre sustentabilidade nos últimos tempos. O Papa Franscisco escreveu uma Encíclica, a Laudato Si (Louvado Seja), exclusivamente para tratar do assunto. O Consultor britânico John Ellkington, considerado o decano da sustentabilidade, criou o conceito do Triple Bottom Line ou dos 3P’s, embasado em três grandes pilares: econômico (Profit), social (People) e ambiental (Planet). Elkington afirma que não se pode falar em sustentabilidade se faltar um destes três pilares: a falta de estabilidade econômica e do retorno financeiro gera o fracasso, a falta de investimento no social e no desenvolvimento e valorização das pessoas gera a miséria e a falta de preocupação com o meio ambiente e com o planeta gera a degradação ambiental e catátrofes.
O Consultor foi extremamente feliz com a criação deste conceito, mas a realidade tem nos demonstrado de forma dura e severa que somente os 3 P’s não bastam, é necessário acrescentar ao conceito mais 1S, o S de “Spirituality”, espiritualidade.
Segundo Guimarães Penna, a espiritualidade pode ser definida como uma propensão humana a buscar significado para a vida por meio de conceitos que transcendem o tangível, à procura de um sentido de conexão com algo maior que si próprio. Eu vou mais além, espiritualidade para mim é a crença profunda em um ser superior e a relação que estabelecemos com este ser, traduzindo-se esta relação de forma visceral em uma vocação amorística, humanitária, holística, que traz sentido para a vida e nos arranca do vazio existencial que toma conta do nosso ser.
O econômico, o social e o ambiental não se sutentam se não houver espiritualidade; a vida não faz sentido. Alguns exemplos dramáticos podem ser citados. A Suiça, considerado um dos países mais desenvolvidos do mundo, possui um elevado índice de suicídios, 11,2 por 100 mil habitantes, segundo o site swissinfo.ch. Um estudo da London School of Economics publicado no jornal online PLOS ONE revelou que o uso de antidepressivos em 29 países europeus subiu em média 20% por ano, entre os anos de 1995 e 2009. Estudos de especialistas da University of Warwick, na Grã-Bretanha e nos Estadoos Unidos revelaram que países mais “felizes” têm maiores taxas de suicídio. São países onde a população tem um padrão de vida muito elevado, são economicamente estáveis, o capital privado e o estado investem fortemente no social, a pobreza praticamente foi erradicada e são referência em termos de conservação e preservação ambiental, mas falta-lhes o principal, a espiritualidade.
Os 3 P’s, Profit, People, Planet sem o 1S, Spirituality por si só não geram a sustentabilidade. O investimento no social por si só torna-se um ato vazio se não houver uma profunda preocupação com o investimento na essência do ser humano. A ex-primeira ministra norueguesa Gro Brundtland definiu desenvolvimento sustentável como a capacidade de suprir as necessidades do presente sem afetar a habilidade das gerações futuras de suprirem suas próprias necessidades. Belíssimo o conceito trazido por ela, mas eu pergunto, sem espiritualidade haverá gerações futuras?…

CAPITALISMO SOCIAL

THOMAS HOBBESO filósofo inglês Thomas Hobbes, no século XVII, criou o conceito de capitalismo liberal, onde o ser humano é considerado essencialmente e naturalmente egoísta e anti-social e vive numa guerra permanente de todos contra todos: “homo homini lúpus”- o homem é lobo do homem. Neste modelo, as organizações vivem exclusivamente para alcançar o lucro máximo, não importando para isto que os meios utilizados sejam em detrimento de valores éticos e legais. Prevalece a máxima de Maquiavel: “o fim justifica os meios”.

TERRAContrariamente ao pensamento do renomado filósofo, surgiu no século XIX, com o objetivo de coibir os abusos do capitalismo selvagem e influenciado pela doutrina social cristã, o conceito clássico de capitalismo social. O conceito preconiza que o ser humano é naturalmente e essencialmente social e que estabelece objetivos comuns, onde todos colaboram para a busca da felicidade. Neste modelo a razão primeira de ser de uma organização é a produção de bens ou serviço que promovam o bem estar social. Os resultados financeiros, embora absolutamente necessários para a sobrevivência do negócio, são apenas uma conseqüência do objetivo principal. A organização deve agir dentro da lei e além dela, remunerando os empregados de maneira justa e muitas vezes, superior ao mínimo legal e zelando de maneira ostensiva pela qualidade de vida no trabalho. Os valores éticos absolutos devem ser criteriosamente respeitados, mesmo que haja prejuízo financeiro.

Durante uma aula de Ética e Relações no Trabalho em um Curso de Pós-graduação de Gestão de Pessoas onde lecionava, uma aluna, surpresa com a filosofia do capitalismo social lançou-me desafiadora a pergunta:

-Professor, existe esta empresa que pratica o capitalismo social?

COBIÇA - DINHEIROA surpresa e a dúvida da aluna é bastante procedente. Infelizmente temos que admitir que o nosso quadro é assustador! Vamos aos fatos: estamos em nono lugar na lista de países que mais geram acidentes do trabalho no mundo, são cerca de 500 mil registros ano! A Previdência gasta em média 10 bilhões de reais por ano com ocorrências que afastam os empregados por mais de 15 dias devido a acidentes de trabalho. Ao primeiro sinal de crise, o capitalismo selvagem reage e demite sumariamente um número enorme de trabalhadores, colocando na rua um contingente assustador de pais de família desempregados. Atualmente são cerca de quase 2 milhões em busca de emprego, representando aproximadamente 8% da população economicamente ativa. Dados da Justiça do Trabalho demonstram que em 2005 o passivo trabalhista, resultado do descumprimento das leis do trabalho e escravização da mão-de-obra gerou para o estado um custo anual em torno de 7 bilhões de reais com a tramitação de ações indenizatórias. Com o passar dos anos e o agravamento da crise, este valor provavelmente já tenha aumentado. O meio ambiente sofre ameaçadoramente com a destruição das florestas e o despejo indiscriminado de lixo, produtos químicos e gases contaminados na atmosfera. São toneladas e toneladas de produtos anualmente jogadas criminosamente nos rios, lagos, ares e mares, sem a mínima preocupação ambiental. Ufa! Deste jeito, onde vamos parar?…

MÃOS-TERRANo entanto, apesar deste cenário escabroso, alguns belos exemplos podem ser resgatados, algumas empresas iluminadas podem ser destacadas. São empresas que descobriram que investir em responsabilidade social, em desenvolvimento sustentável, segundo o princípio do “triple bottom line” (viés econômico, social e ambiental) é urgente e necessário para a sua sobrevivência e da humanidade e, além de tudo, gera retorno financeiro. São empresas como a Catterpillar, a Masa, a Volvo, o Laboratório Sabin, a Eurofarma e outras mais 100 ou 150 que fazem parte do relatório anual da revista Exame. Descobriram o ciclo virtuoso do mundo do trabalho: empregado que trabalha satisfeito aumenta a produtividade, se a produtividade aumenta, aumentam as vendas, se aumentam as vendas, aumenta-se o lucro, se o lucro é bem repartido para a sociedade de consumo, a demanda aumenta, se a demanda aumenta, as empresas vendem mais, se vendem mais, tem mais lucro e no final todos saem ganhando.

MONTEIRO LOBATOJá nos idos de 1948, Monteiro Lobato no seu belíssimo texto “Apelo aos Operários”, proclamava: “o verdadeiro objetivo de uma indústria não é ganhar dinheiro e sim o bem servir ao público, produzindo artigos de fabricação conscienciosa e vendendo-os pelos preços mais moderados possíveis…Quem não pensar assim prestará um verdadeiro serviço à empresa, ao público e aos seus colegas, devendo retirar-se…”

DOM HELDERQuiçá esta linha de raciocínio contamine todos os nossos empresários, formando um verdadeiro mutirão em busca do bem estar social! Utopia?! Vale relembrar uma famosa frase de D. Helder Câmara: “Gosto de pássaros que se apaixonam pelas estrelas e voam em sua direção até cair de cansaço!…

Sobretudo, precisamos de acreditar…

 

MINC E A GUERRA MINISTERIAL: UMA QUESTÃO DE ESTRATÉGICA GOVERNAMENTAL

MINCA julgar pela fala do Ministro do Meio-Ambiente Carlos Minc, a esplanada do ministérios está em guerra. Em entrevista à CBN, ele disse que estavam com as machadinhas esquartejando a área ambiental e ele estava levando facadas , com seus agressores arrancando picanha de suas costas! Pelo que parece, os atacantes seriam os Ministros dos Transportes Alfredo Nascimento e da Agricultura Reinolds Stephanes e os representantes do Congresso Nacional, aliás a briga com o Stefanes já não é de hoje… 

O Stephanes quer por que quer abrir uma estrada no meio da floresta amazônica sem cumprir as condicionantes ambientais e o Nascimento, na mesma linha, quer plantar cana-de-açúcar no pantanal, comprometendo a questão do desmatamento florestal.

O Minc conseguiu uma audiência numa reunião isolada com o Presidente Lula e disse que saiu fortalecido! Afirmou que o Presidente prometeu apoiá-lo: “Minc, você tem razão, vou te fortalecer, vou conversar com os Ministros e os representantes  do Congresso”! 

Para mim, a polêmica foi criada por uma questão básica de falta de estratégia governamental. O que se aplica na gestão de empresas, aplica-se na gestão do estado. O que transparece é que a estratégia de liderança do Presidente Lula está muito falha!  Ou ele não anda se comunicando bem com seus Ministros ou eles não estão afinados com a sua estratégia, por que se estivessem o Minc não estaria, como disse, levando machadadas e correndo o risco de virar picanha! Agora vai o Lula conversar isoladamente com os demais!

Vem a pergunta que não quer se calar: não seria o caso de, como líder, o Presidente convocar seus “meninos” para uma reunião ministerial com e lavar a “roupa suja” antes que alguém vire churrasco! O Minc é que se cuide! Sinto cheiro de carne assada pelo ar!…