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Então é Natal! Imagine!…

natalEntão é Natal! Imagine!…

Imagine que o Estado Islâmico se converteu à essência do Espírito Cristão e se transformou em uma organização mundial na luta pela paz e pela fraternidade…

Imagine que  a guerra civil na Síria acabou e Alepo, como num passe de mágica, foi totalmente reconstruída e as famílias, com suas crianças, puderam voltar em paz para suas casas para celebrar o Natal…

Imagine que a paz tomou conta dos povos do Oriente Médio e cristãos, judeus e mulçumanos se abraçaram, formando uma corrente de respeito, harmonia e tranquilidade…

Imagine que as fábricas de armas  do mundo inteiro fecharam e se transformaram em fábricas de produção de alimentos, roupas e moradias de baixo custo e centros de saúde para atender as populações carentes…

Imagine que não existe mais discriminação por questões de cor, raça, sexo, religião, aparência, condição social ou qualquer outra que possa existir…

Imagine que todos os corruptos do Brasil e do mundo inteiro se converteram e se transformaram em um exemplo de respeito humano, lisura e integridade…

Imagine que nossos Senadores, Deputados e Vereadores aprovaram um Projeto de Lei reduzindo drasticamente seus salários, seus benefícios e suas verbas indenizatórias, assumindo um espírito de doação e dedicação verdadeira à coisa pública…

Imagine que o nosso salário mínimo tornou-se capaz de atender as nossas necessidades vitais básicas e das nossas famílias com moradia, alimentação, educação, saúde, lazer, vestuário, higiene, transporte e previdência social, conforme reza o Artigo VII da nossa Constituição Brasileira…

Imagine que os índices de criminalidade no nosso País caíram a um nível muito pequeno e que a população voltou a poder andar tranquilamente pelas ruas a qualquer hora do dia ou da noite, sentar em frente às suas casas ou nas praças com os amigos e vizinhos para conversar após o horário de trabalho, sem medo de ser assaltada…

Imagine que eu, você e todo mundo vamos, como seres humanos que somos, reconhecer nossos próprios erros e lutar conscientemente pela busca da perfeição e do amor ao próximo…

Então é Natal! Imagine, imagine, imagine e faça a sua parte!…

“Como seres humanos, a nossa grandeza não está em sermos capazes de refazer o mundo, mas em sermos capazes de refazer a nós mesmos”… (Gandhi)

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O MURO DA VERGONHA

muro-da-vergonha-2É lamentável a atitude extremada dos brasileiros diante da situação em que estamos vivendo. A construção de um muro em plena Praça dos Três Poderes em Brasília, símbolo da democracia, ao lado de uma catedral, símbolo do cristianismo, com o objetivo de evitar que os manifestantes partam literalmente para a porrada por causa de questões ideológicas durante a votação do impeachment da Presidente Dilma é um verdadeiro descalabro! Cristianismo e democracia absolutamente não combinam com tais comportamentos! É realmente lamentável! O Brasil é um país democrático considerado o maior país católico do mundo e deveria colocar em prática pelo menos um mínimo de tolerância e observância dos ensinamentos evangélicos. O mais incrível é que todos estes manifestantes embarracados se dizem cristãos e, de mãos postas, frequentam, batendo no peito, as Missas e os Cultos dominicais! Hipócritas, como dizia o Grande Mestre! Dói-me lembrar uma frase atribuída a Gandhi, abismado com o comportamento dos cristãos: “Não conheço ninguém que tenha feito mais para a humanidade do que Jesus. De fato, não há nada de errado no cristianismo. O problema são vocês, cristãos. Vocês nem começaram a viver segundo os seus próprios ensinamentos.”. Este muro é o símbolo da decadência da nossa sociedade e da ignorância e do ódio que anda tomando conta dos corações. Os templos faraônicos e os discursos nos púlpitos são muitos e inflamados mas infelizmente incoerentes com as práticas do dia dia.
Vale a pena dar uma lida na Carta divulgada recentemente pela CNBB, preocupada com as atitudes intempestivas de fundamentalistas cristãos exaltados. Repasso a íntegra abaixo:
Ministério da Justiça,
Ministério Público Federal,
Instituto dos Advogados Brasileiros,
Considerando as graves dificuldades institucionais, econômicas e sociais da atual conjuntura nacional, que geram inquietação e incertezas quanto ao futuro;
Considerando que nenhuma crise, por mais séria que seja, pode ter adequada solução fora dos cânones constitucionais e legais em decorrência do primado do Direito;
Considerando que as divergências naturais, numa sociedade plural, não devem ser resolvidas, senão preservando-se o respeito mútuo, em virtude da dignidade da pessoa humana;
Considerando que, em disputas políticas, necessariamente haverá aqueles que obtêm sucesso e aqueles que não alcançam seus objetivos;
Considerando que, nestes casos, o êxito não pode significar o aniquilamento do opositor, nem o insucesso pode autorizar a desqualificação do procedimento;
Considerando que, sejam quais forem os grupos políticos, suas convicções e valores não devem ser colocados acima dos interesses gerais do bem comum do Estado, que tem o dever de priorizar os grupos mais vulneráveis da população;
Considerando, por fim, que às entidades subscritas cabe desenvolver o seu mais ingente esforço para assegurar a prevalência das garantias constitucionais, norteadas por nossa Carta Cidadã de 1988 no artigo 3º:
Constituem objetivos fundamentais da República Federativa do Brasil:
I. construir uma sociedade livre, justa e solidária;
II. garantir o desenvolvimento nacional;
III. erradicar a pobreza e a marginalização e reduzir as desigualdades sociais e regionais;
IV. promover o bem de todos, sem preconceitos de origem, raça, sexo, cor, idade e quaisquer outras formas de discriminação.
Conclamam todos os cidadãos e cidadãs, comunidades, partidos políticos e entidades da sociedade civil organizada, a fazer sua parte e cooperar para este mesmo fim, adotando, em suas manifestações, a busca permanente de soluções pacíficas e o repúdio a qualquer forma de violência, convictos de que a força das ideias, na história da humanidade, sempre foi mais bem sucedida do que as ideias de força.
Se assim o fizermos, a História celebrará a maturidade, o equilíbrio e a racionalidade de nossa geração que terá sabido evitar a conflagração, que somente divide e não constrói, fazendo emergir dos presentes desafios, ainda mais fortalecidas, as Instituições, a República e a Democracia.”

A VOCAÇÃO LITERÁRIA DE FREI BETTO

Transmito na íntegra a Entrevista concedida por Frei Beto ao Jornalista e Crítico Literário Manuel da Costa Pinto da Revista Cult, falando sobre literatura, religião, contexto político, atuação do Lula e do PT. Altíssimo nível! Vale a pena conferir!

Conhecido por sua atuação política contra o regime militar, o autor de “Batismo de sangue” fala de literatura, política e critica os desvios de rota do PT

Manuel da Costa Pinto

FREI BETOPrestes a completar 71 anos e com sessenta livros publicados, Frei Betto descobriu o amor pela escrita muito cedo, quando suas redações escolares (ou composições, como se dizia à época) fizeram os professores identificarem seu talento – mas só se tornou um autor “graças aos generais brasileiros”.
Integrante da Ação Católica, grupo que se opunha ao regime militar, Carlos Alberto Libânio Christo foi preso duas vezes: em 1964 e no período 1969-1973, quando estava no Rio Grande do Sul e participava de uma rede clandestina formada pelos dominicanos para apoiar os insurgentes.
Dessa segunda experiência, resultaram dois livros de cartas, atualmente reunidas num único volume intitulado Cartas da prisão. Começava a se desenhar aí o perfil do religioso e militante que publicou vários títulos de caráter memorialístico – entre eles, Batismo de sangue, que narra os episódios que levaram ao assassinato do ativista Carlos Marighella e que daria origem ao filme homônimo de Helvécio Ratton.
O cruzamento de atuação política com religião aproximaram Frei Betto do cristianismo progressista dos dominicanos e da teologia da libertação, mas jamais sufocaram sua verdadeira vocação – a literatura. Vocação que foi alimentada pela mãe, Maria Stella Libânio Christo, cristã progressista e autora de livros sobre culinária (entre eles, o clássico Fogão de lenha), e pelo pai, Antônio Carlos Vieira Christo, advogado, cronista e ferrenho anticlerical, que chorou copiosamente quando soube que o filho ia ingressar na ordem dos dominicanos, mas que mais tarde se tornaria “fã da teologia da libertação, de D. Pedro Casaldáliga”, segundo Frei Betto.
Na entrevista a seguir, concedida no convento dos dominicanos, no bairro paulistano de Perdizes, o autor de Minas do ouro fala da preocupação de dissociar a ficção das questões ideológicas – que continuaram presentes em suas intervenções públicas, levando-o a participar do programa Fome Zero, durante o governo Lula, mas não o impedindo de ser um crítico dos desvios de rota do PT e da timidez da esquerda.

CULT – Quando a literatura e a escrita aparecem na sua vida?
FREI BETTO Comecei a escrever muito cedo. Sempre conto que, aos oito anos, quando estava no grupo escolar, minha professora, Dercy Passos, entrou na sala com um maço de composições (belo nome que se usava então para as redações) e, ao fazer a correção, deixou a minha por último. No fim, disse à classe: “Vocês deveriam fazer como Carlos Alberto; ele escreve as próprias composições, não pede para os pais fazerem por ele”. Aí meu ego bateu lá em cima… E mais tarde, no primeiro ano de ginásio, no Colégio Marista, meu professor de português me chamou e disse: “Você só não será escritor se não quiser”. Só que, para mim, ser escritor era coisa de outro mundo, para gente muito erudita. Foi daí que me meti no jornalismo. Comecei, em 1966, por onde muitos almejavam concluir carreira: a revistaRealidade.
Mas só me tornei autor graças aos generais brasileiros, ao escrever Cartas da prisão – que foram publicadas primeiramente no exterior [com outros títulos e em volumes separados], primeiro na Itália, em 1971, em seguida na França e em outros países. Depois, em 1977, saíram no Brasil.

CULT A experiência política marcou muito sua literatura. Em que momento surge uma ficção “pura”, sem essa preocupação?
FREI BETTO A militância me dificultou muito na ficção, que é o que mais gosto de fazer. Tive de lutar para me desfazer dessa camisa de força. Meu primeiro romance foi O dia de Ângelo, onde ainda havia essa camisa de força, tinha um pouco das minhas experiências em celas solitárias. Depois vieram Hotel Brasil e Minas do ouro – em que me soltei mais.

CULT Essa mudança coincide com o período posterior à queda do muro de Berlim, quando as grandes questões ideológicas declinam. É só depois disso, por exemplo, que você escreve Hotel Brasil, um romance policial. Há alguma relação?
FREI BETTO Até onde consigo enxergar conscientemente, queria enfrentar o desafio de fazer um policial – duplo desafio de criar a ficção e o mistério, conduzir o leitor até o fim sem que ele descubra quem é o assassino. Foi isso que passou na minha cabeça. Não tive a consciência de que, com a crise das ideologias, iria fazer literatura “pura”.
Reservo 120 dias do ano só para escrever. Não são dias seguidos, mas são sagrados. E muitas vezes estou fazendo ficção e fico árido; daí, inevitavelmente, leio Machado de Assis. Ele me reaquece, provoca minha inventividade. Fui um leitor voraz de Jorge Amado e Erico Verissimo, de quem era amigo e que me ajudou a montar uma biblioteca na penitenciária em que estive preso – e fui muito marcado pela literatura francesa, Camus, o Sartre do teatro e de A náusea.

CULT Falando em Jorge Amado e Sartre, que eram escritores muito engajados, como você avalia a esquerda de hoje?
FREI BETTO A esquerda hoje é uma raridade. Conheci muito intimamente o mundo socialista, na Nicarágua, depois em Cuba, onde durante dez anos, entre 1981 e 1991, fiz um trabalho institucional de reaproximação entre Igreja e Estado. Com a queda do muro de Berlim, a esquerda acadêmica, que nunca teve um trabalho popular, foi cooptada pelo neoliberalismo, a ponto de hoje acontecer uma enorme crise econômica na Europa Ocidental e não haver qualquer proposta de esquerda.
O principal problema filosófico hoje é a desistoricização do tempo. Isso se reflete na esquerda mundial, que está perdendo o horizonte histórico (não tem utopia, não tem projeto), e também no plano pessoal – a dificuldade de se ter projeto pessoal na vida profissional, artística, afetiva (todos ficam vulneráveis a qualquer dificuldade na relação conjugal).
Isso está nos levando à falta de esperança, e faz com que a discussão política desça do racional ao emocional. Sempre participei de discussões políticas e nunca vi nível de animosidade tão forte como agora, porque se apagou o horizonte histórico.
Não é fácil ser de esquerda em um mundo tão sedutor quanto o do capitalismo neoliberal. Daí o problema do PT, que foi perdendo o horizonte histórico de um projeto Brasil e trocando-o pelo horizonte imediato de um projeto de poder.

CULT Quando percebeu que o PT abandonou seu projeto inicial?
FREI BETTO Isso desaparece na campanha de 2002, quando o PT faz a opção de assegurar a governabilidade pelo mercado e pelo Congresso – daí as alianças e a “Carta aos Brasileiros”, que na verdade é a “carta aos banqueiros”. Ali, o PT abandona sua matéria-prima, que são os movimentos sociais pelos quais deveria ter assegurado a governabilidade, como fez Evo Morales na Bolívia, que não tinha apoio no congresso, se apoiou nos movimentos sociais e, através deles, conseguiu mudar o perfil do congresso. Hoje, ele tem apoio dos dois, é o presidente mais consolidado de toda essa safra progressista. O PT optou pelo mercado e pelo Congresso. Agora, está refém dos dois e pagando um preço muito alto. Tanto que chamou um homem do mercado para ver se melhora a economia e entregou a parte política para o PMDB.

CULT Se você já havia se decepcionado desde a “Carta aos Brasileiros”, por que participou do programa Fome Zero, do governo Lula?
FREI BETTO Achei que a “Carta aos Brasileiros” fosse uma coisa tática, que, uma vez eleito, o PT faria reformas estruturais, tributária, agrária, algum tipo de reforma. Estava altamente entusiasmado. Sempre fui convidado para trabalhar em administração, mas nunca quis trabalhar nem para a iniciativa privada nem para governos. Gosto dessa vida cigana, solta. Quando Lula foi eleito e me convidou para o Fome Zero, achei que trabalhar com os mais pobres entre os pobres – os famintos – se enquadrava em minha perspectiva pastoral e tive todo apoio de meus superiores dominicanos e até de Roma.
Fiquei dois anos e, de repente, o governo matou o Fome Zero para substituí-lo pelo Bolsa Família. Tive então a certeza de que essa opção contrariava a tudo aquilo que o PT vinha pregando desde a fundação. O Fome Zero era um programa emancipador, o Bolsa Família é compensatório. O Fome Zero ia mexer na estrutura do país e por isso foi boicotado pelos prefeitos. Era coordenado por comitês gestores municipais, não passava pelos prefeitos, não havia como usar os recursos para fazer jogo eleitoreiro, então os prefeitos se rebelaram, pressionaram a Casa Civil, que pressionou Lula. No fim, Lula cedeu e eu caí fora.

CULT Você chegou a escrever que o PT faz “populismo cosmético”.
FREI BETTO O erro do Lula foi ter facilitado o acesso do povo a bens pessoais, e não a bens sociais – o contrário do que fez a Europa no começo do século 20, que primeiro deu acesso a educação, moradia, transporte e saúde, para então as pessoas chegarem aos bens pessoais. Aqui, não. Você vai a uma favela e as pessoas têm TV a cores, fogão, geladeira, microondas (graças à desoneração da linha branca), celular, computador e até um carrinho no pé do morro, mas estão morando na favela, não têm saneamento, educação de qualidade. É um governo que fez a inclusão econômica na base do consumismo e não fez inclusão política. As pessoas estavam consumindo, o dinheiro rolando e a inflação sob controle, mas não se criou sustentabilidade para isso. Agora a farra acabou, está na hora de pagar a conta e chama-se o Joaquim Levy [ministro da Fazenda].

CULT Os católicos de esquerda foram preteridos pelo PT por conta dos compromissos com os evangélicos?
FREI BETTO Lula sempre reconheceu que as Comunidades Eclesiais de Base (CEBs) tiveram mais importância na capilaridade do PT pelo território brasileiro do que o sindicalismo. Nos anos 80, havia núcleos do PT no fundo do Maranhão ou do Amazonas graças a essas comunidades. Enquanto foram atuantes, não havia evasão de fiéis para as igrejas pentecostais. Foi o fato de o Pontificado de João Paulo 2º reprimir as CEBs que fez com que os bispos já não as patrocinassem e que muitas pessoas bandeassem para as igrejas evangélicas.
Nas CEBs, o pobre se sente à vontade. Mas numa igreja, não. Você vai à paróquia e só tem classe média, tem a patroa, tudo é centrado no padre – não há convivência como numa comunidade. Ainda existem as CEBs, mas não com aquela força de antes.
As CEBs produziram muitos militantes, como Erundina, Vicentinho, Chico Alencar. As figuras éticas [do PT] têm uma tradição de igreja. O PT é formado por três segmentos: o pessoal da Igreja, o do sindicalismo e o da esquerda – remanescentes da esquerda da época da ditadura (Zé Dirceu, Paulo Vannuchi etc.). O pessoal das CEBs, por formação pessoal, nunca teve muita gana de poder. Aos poucos, ficaram em segundo plano.
Por outro lado, os evangélicos estão armando uma grande estratégia de domínio da política brasileira, que se resume ao seguinte: “Nossos princípios religiosos exigem determinadas atitudes morais e nós só podemos impor isso de duas maneiras: convertendo toda a nação (o que é impossível) ou tendo o poder de fazer a lei civil obrigar as pessoas a agirem como nós queremos (já que a lei é universal)”. Se você tem a caneta, você transforma seu princípio religioso em lei.

CULT Você vê sinceridade religiosa nessas posturas ou é manipulação de sentimentos reativos dos fiéis?
FREI BETTO As duas coisas. Há os fundamentalistas e há os que são meramente oportunistas. Estes perceberam que aquilo é um manancial de votos. O pastor diz claramente: “o candidato é esse”. Isso não acontece na Igreja Católica – aconteceu lá nos anos 30, com a LEC (Liga Eleitoral Católica), em que o bispo dizia “isso sim, isso não”. Nas igrejas evangélicas, há hoje um direcionamento muito explícito. Muitos políticos estão ali por fundamentalismo, muitos por oportunismo.

CULT Qual sua posição sobre a liberação do aborto?
FREI BETTO Defendo o modelo francês. Tudo deve ser feito pelo Estado para convencer a mulher a não abortar, mas a decisão final é dela. Esse modelo, em primeiro lugar, fez com que acabasse o aborto clandestino e, portanto, diminuísse o índice de mortes. Em segundo lugar, o fato de o médico e o ministro da confissão religiosa da mulher induzirem-na a não abortar aumentou o índice de mulheres que foram à procura do aborto, mas decidiram assumir o filho. Eu mesmo tenho experiência pessoal disso. Já recebi vários adolescentes nessa situação e sempre disse o seguinte: “Tenha o filho e deixe aqui que eu crio, pode deixar na porta do convento”. Nunca ninguém trouxe e hoje tenho uma porção de apadrinhados… Tenho uma posição aberta, acho que aborto em última instância é um direito da mulher e não pode ser criminalizado de jeito nenhum.

CULT Mas isso não vai contra os dogmas da Igreja?
FREI BETTO Não é dogma. Se fosse, a Igreja também teria de ser contra a guerra, não haveria capelão militar e, nos EUA, seria contra pena de morte. Na verdade, há uma ambiguidade na teologia. São Tomás de Aquino aceitava o aborto até quarenta dias após a fecundação, porque ainda não haveria ali, propriamente, uma pessoa – e ele é a doutrina oficial da Igreja. A discussão teológica não está fechada. Tanto que escrevi um texto sobre isso em 1988, que circulou na CNBB, e nunca recebi advertência. Aliás, nesse texto digo que “se homem parisse, aborto seria um sacramento”…

CULT E em relação ao casamento homossexual?
FREI BETTO O fundamento da relação de qualquer ser humano é o amor – e, se há amor, há Deus. O tema da sexualidade e da família está congelado na Igreja Católica desde o século 16. Tentou-se várias vezes abrir esse tema nos concílios, mas ele foi podado. Acho que o papa Francisco, muito inteligentemente, está conseguindo quebrar esse preconceito. Em vez de falar “vamos aceitar o casamento homoafetivo”, ele fala “esses casais têm filhos, as crianças não têm direito à catequese?”. Com isso, já abriu o caminho. Ele acaba de receber no Vaticano um transexual espanhol que foi discriminado pelos bispos e que agora vai casar. Foi um escândalo na Espanha, tanto que dizem que a direita de lá reza assim para o papa: “Senhor, iluminai-o ou eliminai-o”.

CULT Outro tema atual que divide a opinião pública é a redução da maioridade penal. Qual sua posição?
FREI BETTO Criminalizar a juventude é uma maneira cômoda de se omitir naquilo que deveria ser feito para evitar a criminalidade juvenil: dar educação. É o caso das UPPs do Rio: a polícia sobe à favela, mas não sobem escola, teatro, cinema, esporte, música – e o traficante não quer que seu filho seja bandido, quer que ele seja doutor. Uma geração já poderia ter sido salva no Rio se os equipamentos sociais também tivessem subido às favelas.

CULT Como militante e ex-preso político, como vê o clamor pelo impeachment da presidente e pela volta da ditadura?
FREI BETTO Não me preocupam ameaças de impeachment ou golpe. Não há caldo de cultura. Os militares nem saem de farda na rua. Militar, no Brasil, antes andava orgulhosamente de farda, até para arrumar namorada…
O que me preocupa é a despolitização da juventude brasileira. Os segmentos de esquerda deveriam estar preocupados com a politização, como houve imensamente nos anos 70 e 80. Não há mais formação de consciência crítica – e aí o pessoal vai no emocional, no oba-oba da volta dos militares, sem ter ideia do que foi a ditadura, que pode parecer que foi tranquila, mas é porque havia uma censura brutal. Estamos voltando a esse nível de desinformação, a esse horror à política.

Manuel da Costa Pinto é jornalista e crítico literário

Fonte : http://revistacult.uol.com.br/home/2015/05/a-vocacao-literaria-de-frei-betto/

O PAPA SUBVERSIVO

PAPA FRANCISCO“Por que a Igreja católica não ordena mulheres para o execício do sacerdócio?”
“Eu também sou um pecador”.
“Não é nada ecológico, nem religiosamente correto nos reproduzirmos como coelhos”.
“Que mal há em admitirmos o fim natural de uma união matrimonial que não deu certo, nem acrescenta mais?”
“O capitalismo atual que destrói tanto a natureza quanto a vida humana, aumentando o abismo entre os ricos e os pobres é uma sutil ditadura”.
“Se Deus nos deu a vida, esse jardim do Éden, que é a terra, este planeta maravilhoso, nós também temos o dever de preservá-lo”.
“Uma advertência para toda a Igreja. Para que se volte à radicalidade do Evangelho. Este não é o tempo de uma Igreja que busque na comodidade dos salões a sua própria vantagem, uma Igreja que renuncie ao Espírito em nome do poder ou da conveniência política”.
“O episcopado não é uma honorificência, é um serviço. Jesus quis que fosse assim. Não deve haver lugar na Igreja para a mentalidade mundana que diz assim: ‘Este homem fez a carreira eclesiástica e tornou-se bispo’. Não, não, na Igreja não deve haver lugar para esta mentalidade, o episcopado é um serviço, não uma distinção para vangloriar-se. É triste quando se vê um homem que procura este cargo e faz tantas coisas para lá chegar. Quando ali chega, não serve, pavoneia-se, vive apenas para a sua vaidade”.
“Os escândalos na Igreja acontecem porque não há uma relação viva com Deus e com sua Palavra. Assim, os sacerdotes corruptos, em vez de dar o pão da vida, dão um pasto envenenado ao santo Povo de Deus.”
“A corrupção é a gangrena do povo”.
“É evidente a incoerência de quem luta contra o tráfico de animais em risco de extinção, mas fica completamente indiferente perante o tráfico de pessoas, desinteressa-se dos pobres ou procura destruir outro ser humano de que não gosta”.
“Vamos dizer sem medo: queremos uma mudança. Este sistema capitalista já não se aguenta. Os trabalhadores, as comunidades e os povos não aguentam. Nem a terra aguenta!”

Estas palavras que mais parecem originárias de um católico qualquer revoltado com os rumos que a Igreja Católica vem tomando nos últimos tempos ou de um ativista extremado, na verdade foram provenientes da boca do Papa Francisco, como afirma uma reportagem da Revista Ecológico em sua última edição de 31/07/15. A Revista insinua que o Papa é subversivo, numa alusão positiva sobre seu discurso e sobre as ações que ele vem tomando à frente da Igreja Católica. A reportagem traz, de maneira bastante elucidativa, uma síntese da Encíclica “Laudato Si” (Louvado Seja) divulgada pelo Papa no mês passado.

Subversivas ou não, o fato é que o Papa Francisco vem incomodando um monte de gente com suas atitudes e afirmações, inclusive alguns reverendíssimos representantes dentro do próprio clero. Quiçá suas santas palavras ecoem pelos ares e sejam ouvidas por todos nós, servindo de semente para o surgimento de uma nova era com mais integridade, paz, justiça, solidariedade e consciência ecológica. Que Deus ilumine seu caminho!

Para queles que se interessarem a conhecer a Encíclica “Ludato Si” em sua íntegra é só acessar o link http://w2.vatican.va/content/francesco/pt/encyclicals/documents/papa-francesco_20150524_enciclica-laudato-si.html.
É uma boa sugestão de leitura em vez de ficar se “emburrecendo” vendo a novela das oito…

CATOLICISMO E PRÁXIS CRISTÃ

CRUZO Brasil é o primeiro país do mundo em número de católicos. O Vatican Information Service divulgou em julho de 2013 um total de 164.780.000 que se dizem ligados à Cúria Romana. É um número muito interessante para se analisar. Se este contingente de pessoas colocasse realmente em prática os ensinamentos cristãos, o Brasil seria um enorme santuário. O problema é que a realidade é bem diferente: a corrupção toma conta da vida pública e privada, assaltos, crimes e assassinatos pipocam pelas grandes metrópoles ceifando vidas inocentes de forma covarde, bandos de sem teto e sem terra invadem terrenos vazios e marquises dos calçadões das cidades, crianças e adultos morrem de forma precoce por falta de atendimento médico adequado e nesse rol se juntam inúmeras outras desgraças. Enquanto isto, as igrejas se superlotam durante as missas dominicais. Afinal, me pergunto, o que estará acontecendo? Depois de algumas reflexões sobre o assunto, cheguei à conclusão que existe outra realidade, subjacente à que é divulgada.
Na verdade, existem 05 tipos de católicos. No primeiro tipo se enquadram os chamados falsos católicos. Dizem-se católicos, mas não mantem nenhum vínculo com a instituição na qual foram batizados e não colocam em pratica nenhum dos preceitos ensinados, muitas das vezes até praticam o contrário. Aqui estão incluídos não só grande parte dos cidadãos comuns, mas também os ladrões, os assaltantes, os estupradores, os pedófilos, os corruptos e muitos outros espalhados por todos os lados.
No segundo tipo, estão os católicos de fachada. Eventualmente frequentam as celebrações promovidas pela igreja em momentos de gala, sentam-se nos primeiros bancos que são para eles reservados, saem nas fotos nas colunas sociais ao lado dos padres, bispos e cardeais e usam e abusam do momento para se projetar de forma farisaica para a sociedade. Muitas das vezes se travestem de socialmente responsáveis e defensores da classe oprimida, mas no fundo estão querendo mesmo é se locupletar. Neste rol, entre outros, estão grande parte dos políticos, administradores públicos, empresários e, infelizmente, até falsos profetas escondidos atrás das batas.
O terceiro tipo engloba os católicos tradicionalistas, talvez aqui esteja incluída a maior quantidade. Frequentam as missas todos os domingos e dias santos de guarda, confessam, comungam, praticam o dízimo como manda o mandamento, cumprem religiosamente todos os preceitos católicos e obedecem cegamente o que os padres falam, mas não conseguem estabelecer de fato uma relação com a religião e a vida prática. Muitas das vezes acabam de sair da missa e já não se lembram do teor da leitura evangélica ainda a pouco anunciada. Xingam de forma desrespeitosa o Presidente, o Prefeito, o vizinho, até o próprio padre ou qualquer outro que caiam na sua língua afiada. As chamadas beatas e os papa-hóstias são bons representantes desta classe.
No quarto tipo vamos encontrar os católicos pragmáticos. Não são de frequentar assiduamente os rituais católicos e nem sabem os mandamentos de cor e salteado, mas estabelecem uma relação muito estreita entre os ensinamentos cristãos e sua prática. Os Evangelhos são sua fonte de inspiração tanto para a vida pessoal como para o trabalho. Algumas vezes mantem uma visão crítica com relação a posturas da igreja e de seus representantes e manifestam sua insatisfação com relação ao fato. Abraçam com amor trabalhos voluntários e ligados a causas sociais. Neste grupo estão vários líderes humanitários, profissionais liberais, mães amorosas e donas de casa e cidadãos simples que fazem de sua vida um exemplo de oração.
Finalmente, no último tipo temos os católicos catequizados. São aqueles que cumprem fielmente todos os rituais e preceitos da religião e lutam de maneira heroica e coerente para os colocarem em prática em todas as circunstâncias. Estão fortemente engajados nos movimentos e pastorais eclesiásticos e, além disto, estão também comprometidos com grandes causas políticas e sociais. Estes formam a base de sustentação da igreja católica e são os chamados bem-aventurados pois, como dizia o Cristo, “ouvem minhas palavras e as colocam em prática” (Lc 11). Talvez aqui, infelizmente, entre os católicos, tenhamos a menor quantidade.
Para aqueles que se enquadram nos grupo dos falsos católicos, dos católicos de fachada e dos tradicionalistas, muito cuidado, por que o Cristo, a dois mil anos atrás já tinha dado seu recado: “Ai de vós, escribas e fariseus, hipócritas! pois que sois semelhantes aos sepulcros caiados, que por fora realmente parecem formosos, mas interiormente estão cheios de ossos de mortos e de toda a imundícia” (Mt 23). Aos pragmáticos, que um dia possam se tornar catequizados e aos catequizados, que Deus ilumine seus caminhos para que continuem sempre sendo o fermento na massa. A todos, estejamos atentos, por que quanto ao dia e a hora, ninguém sabe…
Afinal, em qual destes grupos você se enquadra? Vale a pena refletir sobre o assunto.

DIÁRIO DE LISBOA “ON RETARD”: ENCONTREI MARIA EM FÁTIMA

FÁTIMAEra um domingo de janeiro, frio como todo os demais em Lisboa, o primeiro depois do término dos meus estudos de mestrado e da chegada da minha esposa e de meus compadres para nosso passeio pelas terras lusitanas. Levantamos cedo, tomamos um bom “pequeno almoço” (como dizem os portugueses) no hotel em que estávamos hospedados, pegamos o metrô e fomos para a Rodoviária de Sete Rios. Lá, pegamos um busão, com o diz a moçada da geração Y, rumo a Fátima. Foi uma hora e meia de viagem apreciando as belas paisagens das terras portuguesas. Por volta de meio dia chegamos por lá.
O frio intenso e o vento parece que tinham espantado os romeiros em visita ao Santuário. Alguns poucos gatos pingados se espalhavam pela imensa esplanada. Uma chuvinha fina caia cobrindo de névoas as cabeças e os capuzes de alguns beatos mais ousados que transitavam pelo local. Uma devota de joelhos, seguia fervorosamente atravessando longitudinalmente a longa trilha sinalizada com duas faixas paralelas de branco traçadas no chão até a Capela do Santuário, onde diziam a Santa tinha parecido há muito tempo atrás.
De repente o sino toca e quebra o silêncio chamando os fiéis para rezar na igreja maior. Vários romeiros surgem, como por mágica, de todos os lados, e em fila, seguem para o culto sagrado.
Eu, totalmente imerso em meu espírito de explorador turismático, averso à obrigação catolicística dominical, deixei a esposa e os compadres e me esquivei entre a multidão. De repente, sem saber de onde, uma senhora de aparência sofrida, com com um capuz estilo véu e toda coberta com uma roupa semelhante a um hábito bastante surrado, surge ao meu lado com a mão estendida e com uma fala meio enrolada, pedindo algo que eu não conseguia decifrar. Os romeiros seguiam em frente na fila em direção à missa e pareciam ignorá-la. A princípio também tentei ignorá-la, mas o fato começou a me incomodar. Parei e fiquei olhando, olhando, olhando e o tempo parecia não passar. A cena realmente me absorveu e me incomodava. Não resisti e perguntei a ela o que ela desejava. Da primeira vez, não entendi e pedi para que ela repetisse. Ela repetiu e com muito custo consegui captar que ela queria uns euros para se alimentar. Perguntei o seu nome e ela me disse: MARIA! Minha ficha de repente caiu! UAU!!ENCONTREI MARIA EM FÁTIMA!MARIA II
Meus neurônios entraram em pane! A mulher era MARIA, e estava perto de mim fora dos templos sagrados! Olhei nos seus olhos, seus olhos olharam os meus! Peguei a sua mão e pedi que me acompanhasse. Atravessamos a praça e fomos em direção ao pequeno bairro onde existiam vários locais para se alimentar. Tentei conversar um pouco com ela para saber quem era ela e de onde ela vinha. Com muita dificuldade, entendi que era de um país da Ásia, parece-me que da Croácia e que queria comida para ela e os filhos pequenos que estavam em casa. Fomos caminhando até chegar a um restaurante. Entramos, parecia que todos tinham parado para nos olhar! Paramos em frente ao balcão e perguntei ao garçom o que ele podia servir para ela levar. Ele me disse que poderia providenciar uma boa marmita, bem farta! Pedi a ele para caprichar. Ficamos lado a lado esperando; eu tentei conversar mais com ela, mas era muito difícil entender sua fala. O garçom voltou rápido. Entregou-me uma marmita farta, bastante recheada. Entreguei a ela. Ela pegou, abaixou a cabeça em reverência, agradeceu, virou as costas e foi embora, caminhando bem devagar. Fiquei olhando, olhando, olhando seu caminhar que nunca parecia terminar…

MARIA

MARIAGosto e venero a imagem da Maria Santa de Jesus e pura de José, que eu vi chorando ao pé da cruz, que eu vi sorrindo em Nazaré, como cantarolava o saudoso Padre Zezinho em suas canções populares.
Tenho dificuldades em gostar da imagem de Maria vestida em ouro e com uma coroa de brilhantes fincada na cabeça, distante nos altares de templos seculares.
Gosto da imagem de Maria representada pelas Dulces e Terezas que doaram suas vidas para cuidar dos humildes e dos mais necessitados.
Tenho dificuldades em gostar da imagem de Maria, conforme pintou Suassuna, tragicômica e travestida de advogada, querendo absolver um bando de marginalizados.
Gosto da imagem de Maria representada pelas mães das graças e das praças que com carinho amamentam seus filhinhos com uma expressão de esperança e afeição.
Tenho dificuldades em gostar da imagem de Maria nas dores dos templos barrocos, pálida e descabelada, com uma expressão de desespero e aflição.
Gosto da imagem de Maria representada pelas zelosas operárias que uniformizadas ao lado de seus maridos, lutam pelo sustento dos seus lares.
Tenho dificuldades em gostar da imagem de Maria irmã escondida atrás de um hábito, usando-o como artimanha para gerir seu negócio em seu templo secular.
Gosto das imagens das Marias do mundo que na doação e no amor vivem Maria com um sentimento verdadeiramente profundo…

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