Posts Tagged ‘ eleições ’

O BURRO POLÍTICO

BURRO POLÍTICOBertolt Brecht escreveu uma belíssima reflexão sobre o Analfabeto Político que vale a pena ser lembrado messe momento conflituoso de eleições:
“O pior analfabeto é o analfabeto político. Ele não ouve, não fala, nem participa dos acontecimentos políticos. Ele não sabe o custo de vida, o preço do feijão, do peixe, da farinha, do aluguel, do sapato e do remédio dependem das decisões políticas. O analfabeto político é tão burro que se orgulha e estufa o peito dizendo que odeia a política. Não sabe o imbecil que, da sua ignorância política, nasce a prostituta, o menor abandonado, e o pior de todos os bandidos, que é o político vigarista, pilantra, corrupto e lacaio das empresas nacionais e multinacionais”.

Acrescento ainda aqui uma pequena reflexão sobre alguns debates acalorados que tenho acompanhado entre algumas  pessoas sobre os candidatos à Presidência da República, expondo a si e aos outros publicamente, de forma maléfica. Recentemente, vi dois grandes amigos quase rompendo um relacionamento de longos anos por causa de manifestações desrespeitosas de um deles com o outro, no facebook.

O fato é que, além do analfabeto político, existe o burro político. O burro político é aquele que se acha sempre o dono da verdade e da verdade absoluta. O candidato dele, mesmo havendo evidências irrefutáveis de desvio de conduta ou de problemas de gestão, é perfeito e intocável. Demoniza o candidato dos outros e vislumbra fenômenos catastróficos, caso ele, o candidato adversário ganhe a eleição. Esquece-se que, como dizia Nelson Rodrigues, toda unanimidade é burra, e que divergências de idéias e liberdade de expressão são os maiores atributos da democracia. Numa crise maniqueísta, incentiva a luta de classes e divide o mundo em duas grandes alas, os do bem e os do mal,  os certos e os errados e, travestido de juiz, condena qualquer um que discorde dele. Recusa-se radicalmente a enxergar qualquer tipo de questionamento com relação ao seu candidato e, o pior de tudo, passa para ataques pessoais, acusando de burros, ignorantes, cegos e outros predicados mais, aqueles que não concordam com ele. Torna-se chata e agressiva, desrespeitando as pessoas e até as grandes amizades.

As eleições passam e as pessoas ficam e o tempo irá nos mostrar a verdade. É certo que precisamos exercer nossa cidadania e estarmos conscientes, buscando o que é melhor para o nosso País, mas, sobretudo, precisamos cultivar a sabedoria, sabendo ouvir, respeitando as pessoas com fraternidade e compostura. “Dai a César o que é de César e a Deus o que é de Deus”: quem tem ouvidos que ouça…

Anúncios

ELEIÇÕES: SOMOS TODOS CORRUPTOS?

CORRUPÇÃO IIUma frase em destaque da Presidente Dilma (e não Presidenta, como ela exige erradamente ser chamada) durante o último debate na TV Globo e replicada no Jornal Estado de Minas de 03/10/14 deixou-me assustado e merece ser fortemente questionada: “Não tem ninguém acima da corrupção. Todo mundo pode cometer, as instituições é que devem investigar”.
Será realmente que todos nós temos um preço? Todos somos corruptos? A honestidade e a integridade de qualquer um de nós podem ser compradas? É assim mesmo, vamos engulir a política do vale tudo como normal? Até mesmo abraçar o Maluf, condenado pela justiça e procurado como criminoso pela Interpol, para conseguir vencer a eleição em mais um estado? Pelo visto, parece que é nisso que a Presidente e seu criador acreditam…Afinal, onde fica a ética moral? Onde ficam aquelas nossas crenças e aqueles nossos valores arraigados, aprendidos no berço e tidos como inegociáveis?…
LULA - MALUF
Que, como seres humanos, somos todos sujeitos a erros, isso é um fato, mas daí a julgar que não tem ninguém acima da corrupção, chega realmente a assustar. Julgar que a ética imoral, onde impera o princípio maquiavélico do fim justificando os meios, deve ser encarada com uma prática normal, parece-me uma lógica perversa e inaceitável.
Para a Presidente e para aqueles que compartilham desses pensamentos, deixo aqui a letra e o link do vídeo (https://www.youtube.com/watch?v=cE1VuxpOshI) de um poema da poetiza Eliza Lucinda, interpretado pela Ana Carolina, denominado Poema da Ética – Só de sacanagem!:
Meu coração está aos pulos!
Quantas vezes minha esperança será posta à prova?
Por quantas provas terá ela que passar?
Tudo isso que está aí no ar: malas, cuecas que voam entupidas de dinheiro, do meu dinheiro, do nosso dinheiro que reservamos duramente pra educar os meninos mais pobres que nós, pra cuidar gratuitamente da saúde deles e dos seus pais.
Esse dinheiro viaja na bagagem da impunidade e eu não posso mais.
Quantas vezes, meu amigo, meu rapaz, minha confiança vai ser posta à prova?
Quantas vezes minha esperança vai esperar no cais?
É certo que tempos difíceis existem pra aperfeiçoar o aprendiz, mas não é certo que a mentira dos maus brasileiros venha quebrar no nosso nariz.
Meu coração tá no escuro.
A luz é simples, regada ao conselho simples de meu pai, minha mãe, minha avó e os justos que os precederam:
” – Não roubarás!”
” – Devolva o lápis do coleguinha!”
” – Esse apontador não é seu, minha filha!”
Ao invés disso, tanta coisa nojenta e torpe tenho tido que escutar. Até habeas-corpus preventivo, coisa da qual nunca tinha visto falar, e sobre o qual minha pobre lógica ainda insiste: esse é o tipo de benefício que só ao culpado interessará.
Pois bem, se mexeram comigo, com a velha e fiel fé do meu povo sofrido, então agora eu vou sacanear: mais honesta ainda eu vou ficar. Só de sacanagem!
Dirão:
” – Deixa de ser boba, desde Cabral que aqui todo o mundo rouba.”
E eu vou dizer:
“- Não importa! Será esse o meu carnaval. Vou confiar mais e outra vez. Eu, meu irmão, meu filho e meus amigos. Vamos pagar limpo a quem a gente deve e receber limpo do nosso freguês. Com o tempo a gente consegue ser livre, ético e o escambau.”
Dirão:
” – É inútil, todo o mundo aqui é corrupto, desde o primeiro homem que veio de Portugal”.
E eu direi:
” – Não admito! Minha esperança é imortal!”
E eu repito, ouviram?
IMORTAL!!!
Sei que não dá pra mudar o começo, mas, se a gente quiser, vai dar pra mudar o final.

Quem tem ouvidos, que ouça…

RESSACA DA COPA

COPAAlém de ver seu dinheiro indevidamente utilizado para gastos espúrios, parar o País para ver a bola rolar nos gramados, dormir em filas quilométricas e pagar caro para ver de perto uma festa da qual dizia não concordar, o brasileiro incônscio ainda tem que pagar pela vergonha de uma derrota desastrosa, estampada pelas mídias no mundo inteiro. Os problemas nacionais (que nunca se foram), voltam aos jornais de maneira ainda mais intensa e os candidatos às eleições que se aproximam, além de criticar seus colegas de exercício, prometem mundos e fundos como se tivessem uma varinha mágica cujo toque irá resolver todos os nossos problemas. E a massa incônscia que idolatra e logo depois demoniza os seus cesares do futebol, acha que o Jornal Nacional divulga verdades absolutas, adora a novela, o Caldeirão e Faustão acredita…

FICHA LIMPA: ÉTICA DA CONVICÇÃO OU ÉTICA DA RESPONSABILIDADE?

Depois de muita polêmica, o Supremo Tribunal Federal aprovou no dia 24 de março de 2010 a Lei da Ficha Limpa. Na sua essência a Lei prevê que políticos com condenação na Justiça sejam impedidos de concorrer a eleições. O detalhe é que a Lei só poderá ser aplicada para as eleições de 2012. Apesar de já ter sido aprovada pela Câmara dos Deputados, pelo Senado e sancionada pelo Ex-Presidente Lula, o Ministro Luiz Fux, recém-empossado e responsável pelo voto de desempate, entendeu que a aplicação imediata da Lei seria inconstitucional. Portanto os políticos corruptos podem continuar mamando nas tetas do poder com seus salários astronômicos e benesses infindáveis por mais dois anos. Até lá, sabe Deus o que ainda pode acontecer!…

A decisão do Supremo  e a argumentação do Ministro nos remete à questão do estudo da Ética da Convicção e da Ética da Responsabilidade. A Ética da Convicção parte do princípio de que se existe uma Lei, ela deve ser cumprida, custe o que custar. Dentro deste princípio, se a Constituição reza que a Lei para ser aplicada deveria ter sido aprovada por pelo menos um ano antes das eleições de 2010, então os políticos envolvidos não poderão ser imputados já, mesmo sabendo que com isto será aberta uma enorme janela para a manutenção da corrupção e para fugas e subterfúgios de malandros disfarçados de representantes do povo. Leis foram feitas para serem cumpridas e acima de tudo, a Constituição tem que ser respeitada! Tudo indica que parece ter sido este o raciocínio do Ministro para sua tomada de decisão. Por outro lado, se o Ministro agisse segundo os princípios da Ética da Responsabilidade, mesmo considerando o caráter da inconstitucionalidade, possivelmente sua decisão seria outra.  A Ética da Responsabilidade o remeteria a um raciocínio de que não dá mais para aguentar tanta safadeza, tanta roubalheira, tanta sacanagem com o dinheiro do povo! Dane-se a inconstitucionalidade! A Lei precisaria de ser aplicada e ser aplicada já! Fora com os corruptos e safados!

E então, Ética da Convicção ou Ética da Responsabilidade, qual caminho você decidiria tomar?

O CLERO E AS ELEIÇÕES

Acho que tem Padre e Bispo falando demais nestas eleições. Como católico praticante que sou, acho que a Igreja Católica tem toda a razão em ser contra o aborto e deve mesmo se manifestar de maneira veemente em relação a isto. O que acho uma tremenda falta de respeito aos fiéis é utilizar do altar e do poder da batina para reprovar  ou defender de maneira declarada e explícita o nome de determinado candidato para a Presidência da República, qualquer que seja. Acho que o Vaticano e a CNBB deveriam dar um cala-boca nestes digníssimos representantes da Igreja que se esquecem que o templo não pode virar palco para partidarismos políticos. Dai a César o que é de César e a Deus o que é de Deus…

ÉTICA E RELAÇÕES DE TRABALHO

Urge como nunca falar e discutir sobre ética no Brasil nos tempos atuais nesse nosso mundo globalizado. Segundo o Relatório 2009 da ONG Transparência Internacional, nosso País ficou classificado (pasmem!) como o septuagésimo quinto País mais corrupto do mundo entre outros 180 países, com 3,7 pontos, numa escala de zero a dez. Lamentavelmente estamos reprovados! O problema é sério e muito sério, e precisa de forma radical ser tratado!

Se voltarmos na linha do tempo, desde os idos de 1500, pela ocasião do descobrimento das terras brasileiras, vemos Pero Vaz de Caminha, em sua famosa carta ao Rei de Portugal, pedindo a Sua Alteza a “gentileza” de conseguir uma “boquinha” para seu genro Osório que se encontrava degredado na África por ter roubado uma igreja e batido no padre!:

“…Vossa Alteza, que há de ser de mim muito bem servida, a ela peço que, por me fazer graça especial, mande vir da ilha de São Thomé a Jorge de Osório, meu genro, o que de lá receberei em muita mercê…”

Mais à frente, em 1808, encontramos D. João VI, fugindo da invasão de Napoleão a Portugal e vindo para o Rio de Janeiro, na época com 60 mil habitantes, com toda a família imperial, além de uma enorme trupe de mais de 10 mil pessoas, entre serviçais, puxa-sacos e apadrinhados. Criou-se então a cerimônia do “beija-mão”, ritual por meio do qual os súditos do Rei iam prestar-lhe homenagem, demonstrar submissão e, de quebra, pedir-lhe algum favorzinho para si e para os seus familiares.

O maior problema é que a coisa foi caminhando pela linha do tempo e se alastrou como praga de maneira descontrolada, chegando até os dias atuais, atingindo todos os níveis, independentemente das classes políticas ou sociais.

Como Professor da Disciplina Ética e Relações no Trabalho em Cursos de Pós-Graduação em Belo Horizonte e diversas cidades do interior de Minas Gerais, tenho tido oportunidades as mais variadas de ver o enorme estrago que a falta de ética produz na sociedade. Normalmente peço aos alunos que descrevam e analisem “cases” onde eles observam o envolvimento de questões éticas no trabalho, na comunidade, na sociedade e em seguida realizamos um seminário para compartilhamento das experiências relatadas. A participação de todos é estimulante, acalorada, mas ao mesmo tempo dramática. Nos relatos, dilemas de meios e destinatários afloram em tomadas de decisões bastante questionáveis. A lógica maquiavélica dos fins justificando os meios, por várias vezes prevalece na prática. Algumas “pérolas” despontam para embasar justificativas lamentáveis: “Se todos roubam, só eu não vou roubar?”… ”Se o governo cobra impostos abusivos, nós temos mesmo é que sonegar!”…“É só um pequeno aumento no recibo do táxi para ajudar no salário!”…

Os contra-exemplos são os mais variados, evoluindo de casos aparentemente elementares até os de impacto irremediáveis. Neste rol aparecem relatos de alunos que assinam a lista de presença para colegas que faltaram às aulas, alunos que deixam colegas assinarem trabalhos no qual não tiveram nenhuma participação, tudo isto em nome do companheirismo e da amizade. Aparecem cidadãos que compram CD’s piratas ilegalmente vendidos nas calçadas, profissionais vendendo recibos falsos para abater no imposto de renda, motoristas infratores pagando cerveja para o policial corrupto livrá-los da multa. E ainda, empregados levando pequenos objetos da empresa para casa como se fossem de sua propriedade, secretárias de paróquia pegando dinheiro da sacolinha do padre às escondidas, para resolver problemas particulares e por aí segue uma lista interminável. Em níveis mais avançados, surgem imagens retratando  quantidades enormes de dinheiro público, escondidos em meias, cuecas e malas, verbas desviadas com concubinas e viagens para inauguração de obras eleitoreiras, políticos vendo suas contas bancárias inflarem de maneira acelerada com dinheiro proveniente de verbas indenizatórias, benesses e propinas deslavadas.  Até a religião, que deveria ser um marco da moralidade, aparece desgradaçamente nos relatos, traindo seus fiéis signatários, com enormes quantias de dinheiro fugindo do País em malas abarrotadas e crianças sendo, de maneira covarde, sexualmente molestadas.

Após o seminário, normalmente surge uma sensação de desconforto, interrogação e de uma necessidade imperativa de mudar. Surge então no ar uma pergunta que não quer se calar: Como podemos cobrar lisura dos nossos representantes, se grande parte dos cidadãos não tem a coerência necessária entre seus julgamentos, cobranças e atos? As eleições estão aí, como e quem nós vamos eleger para nos representar?

A conclusão surge de maneira traumática: é necessário rever urgentemente nossos princípios, nossos valores, nossas atitudes e nossos hábitos! Se quisermos de fato mudar este nosso País, temos que começar pela base, e esta base está dentro de nós e somente nós podemos mudá-la. Precisamos urgentemente que a ética moral, respaldada em princípios e valores sólidos prevaleça sobre a amoral e sobre a imoralidade. Em meio a tanto impropério e falta de integridade, vale a pena repetir o belíssimo verso da poetiza Eliza Lucinda, “Só de Sacanagem”:

“A luz é simples, regada aos conselhos simples de meu pai, minha mãe, minha vó e os justos que o precederam: não roubarás, devolva o lápis do coleguinha, este apontador não é seu meu filho…Pois bem se mexeram comigo, com a velha e fiel fé do meu povo sofrido, então agora eu vou sacanear, mais honesto ainda eu vou ficar, só de sacanagem…Sei que não dá para mudar o começo, mas se a gente quiser vai dar para mudar o final!…”