AINDA FALANDO SOBRE A DITADURA

“Posso não concordar com o que você diz, mas defenderei até o fim o seu direito de dizê-lo”. (Voltaire)

Recebi várias críticas e comentários na minha página do Facebook, alguns de amigos que tenho apreço, sobre meu último Artigo a respeito da Ditatura e do Ato Institucional N° 5, comentários estes defendendo de maneira veemente a atuação do governo militar instaurado no Brasil a partir de 1964 e extinto na década de 80. A todos, com respeito, dedico mais esta reflexão.

Antes de qualquer conjetura, considero importante esclarecer que não defendo aqui qualquer ideologia, quer seja comunista, capitalista, de centro, de direita ou de esquerda. Defendo a democracia, a liberdade de expressão e, sobretudo, a valorização e o respeito à vida e à dignidade do ser humano. Então, vamos aos fatos.

É um fato historicamente indiscutível que em 1964 os militares, apoiados pelos Estados Unidos, tementes da vinda do comunismo para o Brasil, derrubaram João Goulart da Presidência da República e assumiram o poder.

É também é um fato historicamente indiscutível que o Governo Militar assumiu o poder com o propósito de fazer uma transição para um novo governo democrático e permaneceu por 21 anos. Nesse período, segundo a Comissão Nacional da Verdade, cerca de 20 mil pessoas opositoras do sistema foram torturadas e outras 362 morreram ou simplesmente desapareceram nas mãos dos militares.

Indiscutivelmente, todos nós brasileiros queremos um Estado onde “os poderes vigentes exercessem seu papel de forma responsável, coerente, isenta e com justiça, objetivando o bem do País”, conforme comentou nosso amigo José Maria Alvarenga em uma de suas postagens. No entanto, é preciso entender que não podemos, em hipótese alguma, trocar nossa liberdade de expressão e concordar com a tortura e o assassinato em nome de uma mudança que não irá acontecer.

Pode parecer sádico, mas os relatos traumáticos de alguns dissidentes, vítimas de tortura retirados do site Diálogos do Sul, citados abaixo, estão aí para demonstrar as cenas de terror em que foram envolvidos e que eram comuns naquela época.

Perdoem-me se deixo alguns leitores chocados, mas quem sabe a realidade nua e crua possa falar mais alto para aqueles que ainda continuam insistindo na adoção de práticas ditatoriais e desumanas. Vejamos então alguns relatos.  

“Aí começa a sessão de horror. Colocavam toco de cigarro nas mãos deles até fazer bolha, beliscavam o corpo deles com pontas de faca, eles ficaram todos feridos. Os rostos ficaram só hematomas. Quebraram o nariz do Ribeiro com soco, arrastaram pelos pés e penduraram em uma árvore de cabeça para baixo, o sangue pelo nariz escorrendo. Se eu não falasse o que eles queriam ouvir, eles iriam matar o Ribeiro enforcado. Eu desmaiei, quando acordei estava molhada de pinga e vomitando.”. (Dirce Machado da Silva, Agricultora – presa e torturada, juntamente com o marido em 1967).

“Nessa noite, lá em casa, eles prenderam também meu sogro e minha sogra, já idosos, e meu sogro ficou algemado a uma árvore, minha sogra ficou na sala, também algemada, e aí nós fomos torturados, um em frente ao outro, eles tinham uma máquina de choque, que eles chamavam de “maricota”, aí batiam na gente com toalhas molhadas, tinha um alicate, beliscavam a gente no corpo, e meu marido, eles levaram, jogaram ele no córrego que tinha ao lado de casa, deram choques elétricos, dentro do córrego, ele ficou com traumas o resto da vida, ele teve problemas urinários, ele teve que tratar a vida toda”. (Izabel Fávero – Professora, também presa e torturada juntamente com o marido na mesma época).

“Eu fui para a cadeira do dragão, em que os caras jogaram água e me deram um choque na vagina, no seio, o pior foi na orelha, porque a impressão que dá é que jogaram o cérebro da gente no liquidificador, sabe?” (Robeni Batista da Costa – Estudante secundarista na época do governo militar e ex sub-prefeita de Campinas).

Muitos outros exemplos terríveis, concretos e incontestáveis poderiam ser citados, mas prefiro ficar por aqui para não tornar ainda mais assustadora a experiência dos leitores.

Por mais que alguém abomine o comunismo ou qualquer outra ideologia, é muito difícil entender que algum cristão, em sã consciência, defenda um governo que utilizou de práticas tão monstruosas como as descritas.

Ficar discutindo quem começou primeiro ou quem está com a razão, se foram os de direita ou os de esquerda não pode justificar nunca a ocorrência de tanta violência. Olho por olho, dente por dente, no final todos ficam cegos…

Alegar que o País viveu um momento de ordem e progresso naquele período, se é que isto é uma verdade, é concordar que o fim justifica os meios e que a vida de seres humanos não tem valor para se chegar a este estágio, o que é um absurdo.

Pode ser possível que a maior parte da população não tenha sofrido qualquer tipo de coerção naquela época, como afirmam alguns defensores do sistema ditatorial. No entanto, é bom lembrar que esta parcela da população se enquadrava em três grandes grupos: os conformistas, que concordaram com os métodos maquiavélicos utilizados pelo sistema, os medrosos que ficaram com medo dos fuzis e das metralhadoras e os omissos que entenderam que não tinha nada a ver como o que estava acontecendo, apesar de todos os pesares. Aqueles que usam este argumento, é só escolher em qual grupo se enquadraram ou enquadrariam.

Quem tem ouvidos que ouça!

Contatos caesarius@caesarius.com.br (31) 99345-0515

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