A TRISTE E TRAUMÁTICA QUEDA DE UM GIGANTE

Se o capitalismo é incapaz de satisfazer as reivindicações que surgem infalivelmente dos males que ele mesmo engendrou, então que morra! (Leon Trotsky)

Durante mais de 30 anos a Samarco Mineração S.A foi considerada uma empresa top de linha em termos de gestão e produtividade, uma das melhores empresas para se trabalhar no Brasil e a menina dos olhos das grandes multinacionais Vale e BHP, suas acionistas. Nesse período, foi agraciada com vários prêmios voltados para as áreas de gestão operacional e ambiental e possuía um quadro de funcionários altamente qualificados, engajados e motivados para o alcance de suas metas organizacionais.

De repente, tudo ruiu! O rompimento da Barragem de Fundão no dia 05 de novembro de 2015 levou tudo pela lama abaixo! O que parecia ser uma fortaleza indestrutível transformou-se em um castelo de areia desmoronado. Acusada de ser causadora de um dos maiores crimes ambientais de todos os tempos, hoje jaz agonizante, entubada em uma UTI de massas falimentares, lutando desesperadamente pela sua sobrevivência e, pelo que tudo indica, em vias de abandono pelas suas grandes acionistas, que parecem não se lembrar mais dos inúmeros cifrões que gerou para as suas bolsas. Grande parte do seu pátio industrial está obsoleto para tratar o minério com baixo teor de ferro e em fase de ser sucateado. Possui uma dívida em torno de 4 bilhões de dólares em “default”, ou seja, sem condições de pagar e que deve tentar renegociar com seus credores, processo que poderá demorar longo tempo para ser concluído.

A licença concedida permite o início de produção de minério de ferro no segundo semestre de 2020, mas com um volume bem inferior à produção de antes do acidente, o que limita a receita que poderá ser utilizada para sanar a dívida, ao menos inicialmente, bem como o repasse de CFEM para os municípios. A deposição de rejeitos na cava ou o empilhamento a seco possui disponibilidades limitadas e não resolve de vez o problema das barragens. A previsão é que a produção deve ser retomada inicialmente ao nível de 8 milhões de toneladas de minério ao ano e deve demorar no mínimo uma década para atingir o volume de produção anterior ao acidente, de 25 milhões de toneladas, se conseguir sobreviver até lá…

É preciso ter muito claro que, mesmo com o retorno da Samarco, nada mais será como antes. É realmente uma triste e dura realidade, mas que precisa ser encarada de frente! Duas grandes lições precisam ser urgentemente aprendidas com esta grande catástrofe. Primeiro: o sistema capitalista selvagem vigente, onde o cifrão e a busca obsessiva pelo lucro tem muito mais importância do que o respeito a vida e a dignidade do ser humano, precisa ser radicalmente reinventado. As teorias do Triple Bottom Line (equilíbrio entre o econômico, o social e o ambiental) e do Capitalismo Consciente (Mackey/Sisodia) estão aí para ensinar. É só ter coragem para colocar em prática!

Segundo: precisamos eliminar de vez a nossa dependência única e exclusiva das mineradoras. Se nossos governantes e a comunidade marianense estão com expectativa de que as coisas retornem integralmente à situação que era antes, é bom que mudem radicalmente a forma de pensar e de agir. É preciso urgentemente criar novas alternativas à nossa dependência das mineradoras. Diversificação econômica deveria ser, de forma estratégica, a grande e maior meta, deixando a politicagem de lado, independentemente do executivo de plantão. Implantação de programas estratégicos de atração de empresas para o município, investimento no estímulo aos micro, pequeno, médio e grandes empresários locais, desenvolvimento do turismo histórico, artístico, religioso, cultural, esportivo e ecológico deveriam ser, inegociavelmente, as principais e grandes bandeiras. Que as novas propostas políticas que estão surgindo por aí abracem de vez e de fato essa causa, deixando de lado os interesses politiqueiros e os bate-bocas infindáveis que não levam a nada e ainda enchem o saco de quem está realmente preocupado com o desenvolvimento sustentável da nossa cidade.

Quem tem ouvidos que ouça!

(Artigo publicado no Jornal Panfletu’s Edição 782 de 06/02/20)

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