O ENEM, O SISU E A TEORIA DA REPRODUÇÃO DE PIERRE BOURDIER

EDUCAÇÃOO Sistema de Ensino Brasileiro tem uma cultura predominantemente focada em preparar o jovem, desde a infância até a conclusão do ensino médio, de forma exaustiva, maquiavélica e discriminatória, para ser aprovado no Exame Nacional do Ensino Médio, o ENEM e, na sequência, batalhar por uma vaga em uma Universidade através do Sistema de Seleção Unificado – SISU. Do antigo vestibular para o sistema atual, sinceramente não consigo ver grandes evoluções. Em vez de terem que se deslocar para se submeterem ao terrorismo do Exame em terras distantes, nossos jovens passaram a ter o “privilégio” de sofrer mais próximo do local de origem. Neste Sistema, o ensino é utilizado como uma mera ferramenta para aprovação no Exame no final da linha e para a manutenção do status quo da pirâmide e não como um instrumento de formação do ser humano como agente de transformação social. O conhecimento é difundido cada vez mais através de uma série de macetes, fórmulas decoradas, decorebas e “tirocetes” (tirocínio + macetes) onde os maiores e melhores são sempre aqueles nascidos em berço de ouro e que tiram as notas mais altas. Alguns poucos, verdadeiros heróis pertencentes às classes menos privilegiadas conseguem quebrar o ciclo e evoluir socialmente. Desta forma, ganham cada vez mais o capitalismo dos cursinhos preparatórios e o sistema discriminatório de manutenção das castas sociais.

Os resultados do ENEM 2015 demonstraram que os alunos que obtiveram as melhores classificações e foram para as melhores universidades foram justamente os alunos pertencentes às classes mais altas e que frequentaram as melhores escolas particulares e os melhores cursinhos preparatórios, evidentemente inaccessíveis aos demais jovens. Em contrapartida, estes demais jovens que obtiveram as piores classificações foram justamente aqueles pertencentes às classes pobres, que frequentaram as escolas públicas e não tiveram condição de pagar os cursinhos preparatórios.

Pierre Bourdier (1930-2002), um famoso estudioso francês da área de educação, desenvolveu uma teoria chamada Teoria da Reprodução, onde afirma que os sistemas tradicionais de ensino nada mais fazem que reproduzir os sistemas de castas sociais, ou seja, normalmente os jovens que são provenientes de famílias com maior poder aquisitivo, são os que frequentam as melhores faculdades e, consequentemente, conseguem se formar nas profissões mais rentáveis. Pelo contrário, aqueles que são provenientes de famílias de menor poder aquisitivo, são os que frequentam as piores faculdades (quando frequentam) e acabam se formando em profissões menos rentáveis (quando se formam). E assim o sistema se reproduz indefinidamente.

Se tivéssemos de fato um ensino básico de qualidade para todos, conforme rezam as novas metas do milênio, com certeza nossos jovens não precisariam passar por este martírio e as oportunidades seriam equalitárias.Creio que a nossa chamada “Pátria Educadora” para o ser de fato e de direito precisaria de rever de forma drástica a estrutura de ensino vigente, com menos discriminação e menos desigualdades, através de mudanças basilares onde as oportunidades sejam iguais para todos independentemente das origens ou classes sociais. Infelizmente parece que Paulo Freire tinha razão quando afirmava: “Seria uma atitude ingênua esperar que as classes dominantes desenvolvessem uma forma de educação que proporcionasse às classes dominadas perceber as injustiças sociais de maneira crítica”.

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