ANÁLISE DE RISCO QUANTITATIVA NA MINERAÇÃO

bentoO Artigo abaixo é de autoria de Ricardo Coelho, Engenheiro Eletricista e um grande amigo de longas jornadas. O Ricardo faz uma abordagem com maestria sobre o histórico do rompimento de barragens nos últimos anos e os riscos envolvidos com este rompimento. Uma análise de altíssimo nível que merece ser lida e compartilhada.

“O último acidente com rompimento de barragem de rejeito ocorrido em Mariana nos faz refletir bastante sobre suas consequências para as famílias das vitimas, para o meio ambiente, economia da região, enfim um desastre catastrófico que obviamente nos faz realizar todos os tipos de perguntas, suposições e julgamentos.
O objetivo desse texto não é de falar sobre as possíveis causas, responsabilidades ou fazer qualquer tipo de pré-julgamento sobre o acidente, mas sim chamar a atenção do porque normalmente não realizamos e atualizamos nossas análises de riscos baseadas em quantitativos a partir de dados estatísticos durante as fases de projeto, manutenção e operação em nossas minerações.
Em 2014 tivemos um acidente com rompimento de uma barragem de rejeitos de minério em Itabirito da empresa Herculano com três fatalidades e agora o acidente da Samarco em Mariana de proporções catastróficas. Não teríamos dados estatísticos sobre acidentes com barragens de rejeitos no mundo?
Um trabalho realizado por alguns especialistas canadenses há pouco mais de um mês, escrito de 26 a 28 de outubro de 2015, portanto antes do acidente da Samarco, chamado: “Tailings facility failures in 2014 and an update on failure statistics” link ao lado (http://www.infomine.com/library/publications/docs/Caldwell2015.pdf) apresenta números muito interessantes sobre acidentes com barragens de rejeitos em todo o mundo.
O estudo afirma que derrames catastróficos de rejeitos estão ocorrendo com frequência crescente em todo o mundo e que metade das falhas graves e muito graves em barragens, 33 das 67 dos últimos 70 anos ocorreu exatamente nos últimos 20 anos. O cálculo da taxa de falhas é muito simples, considerando 67 falhas em 70 anos e cerca de 3.500 barragens no mundo atualmente, temos: 67 / (3500 x 70) = 2.7 x 10-4. Realizando o mesmo cálculo para os acidentes muito graves nos últimos 20 anos, temos: 33 / (3500 x 20) = 4.7 x 10-4.
TABELA RISCOS BARRAGEM I
Tabela retirada da página 6 do trabalho “Tailings facility failures in 2014 and an update on failure statistics”
Portanto temos um bom histórico atualizado de acidentes graves e muito graves ocorridos com barragens de rejeito em todo o mundo para utilizarmos em análises de riscos quantitativas e não apenas qualitativas como normalmente utilizamos nas empresas. A partir da probabilidade de falha poderíamos utilizar a matriz de tolerabilidade de risco para avaliar se os riscos seriam aceitáveis ou não. Considerando as 1996 vítimas dos acidentes com barragens de rejeito em 92 anos de histórico desde 1917 para o número de barragens atuais, teríamos uma taxa de fatalidade/ano de 1996 / (92 * 3500) = 6,2 * 10-3 e considerando apenas os últimos 47 anos teríamos uma taxa de fatalidade/ano = 1996 / (47 * 3500) = 1,21 * 10-2.
Nos estudos de análise de riscos de instalações ou de atividades perigosas, a probabilidade de ocorrência do evento é normalmente expressa em termos do número de eventos por ano (F) que podem causar danos aos seres humanos, e as consequências são Risco = Probabilidade do evento x Consequência frequentemente medidas em “número de óbitos” (N). Assim, risco pode ser equacionado como: R = F x N.
Segundo o Instituto Americano de Engenharia Química, o risco industrial pode ser “medido” em termos de probabilidades e magnitude dos seguintes danos: Lesões humanas, Perdas econômicas e Danos ao meio ambiente.
Definindo o Risco Social como ”a relação entre a frequência e o número de pessoas que poderão sofrer lesões a partir da materialização de um perigo específico”, podemos relacionar a chance de acidentes de “grandes proporções” causarem vítimas fatais, porém, existe muita dificuldade em determinar as proporções de um acidente e definir esses padrões.
A aviação e a indústria química, por exemplo, adotam o gráfico de tolerabilidade de risco onde é possível relacionar os riscos social (Rs) e individual (Ri). Uma relação aceita entre os especialistas é: “Se o risco social
para mais de 10 óbitos é X, o risco individual máximo será da ordem de 10 vezes X”. Ri = 10 x Rs+10 óbitos.
Olhando para o acidente ocorrido em Mariana e considerando o critério de tolerabilidade de risco de fatalidade no gráfico abaixo, a Vila de Bento Rodrigues estando a menos de 3 km a jusante das barragens de rejeito, com população estimada em 600 pessoas e considerando a taxa de fatalidade/ano de 1,21 x 10-2 por barragens de rejeito, caímos em uma região do gráfico de risco intolerável, ou seja, um risco inaceitável a partir do potencial de fatalidade e da probabilidade atual de fatalidades/ano por barragens de rejeito no mundo.
Análise de Risco Quantitativa na Mineração
Matriz de Tolerabilidade de Risco – Fatalidades
É claro que após a ocorrência de um acidente dessas proporções pode parecer fácil e oportunista a identificação e classificação desse risco, mas a verdade é que uma boa análise de risco quantitativa teria uma chance maior de melhorar a classificação dos riscos e alertar para melhores medidas de mitigação em função dos resultados, visto que com uma análise muito simplista utilizando apenas a taxa de mortes na “indústria” de rejeitos foi possível encontrar valores muito acima dos limites geralmente aceitos “seguros” para as indústrias perigosas.
O estudo mostra também que algumas barragens já nascem com um Fator de Segurança (FoS) = 1,3 ao invés de um FoS = 1,5 e com o envelhecimento da barragem, possíveis combinações de riscos naturais ou de origem humana associada às más condições globais (investigações geotécnicas, concepção, construção, operação e manutenção) aumentam de forma exponencial a probabilidade de um acidente e que essa observação é particularmente importante durante os ciclos de baixa de algumas commodities.
Os autores do trabalho reiteram que o objetivo de “Falha Zero” em barragens de rejeito é impossível de se alcançar e que no longo prazo essas instalações descerão em uma espiral com aumentos significativos da probabilidade de falha e quando falharem, obviamente seus rejeitos seguirão para os rios a jusante, lagos e oceanos, como vem ocorrendo até hoje.
Em suas previsões formuladas nesse estudo de 2015, eles consideram que ocorrerão 11 falhas muito graves em barragens de rejeito em todo mundo custando por volta de US$ 6 bilhões entre 2010 e 2019, com um custo médio de US$ 543 milhões por acidente.
A partir dessa previsão podemos também avaliar o risco financeiro de se ter um acidente com derramamento de lama a partir de um acidente com barragem de rejeitos utilizando a probabilidade da ocorrência de um acidente muito grave citado no trabalho, o custo médio indicado por acidente e o gráfico do estudo realizado pela Riskope publicado em 2008 logo após o acidente da BP com derramamento de óleo no Golfo do México. Link ao lado (http://www.riskope.com/2010/06/08/bp-crisis-rational-analysis-what-bp-did-not-perform/).
Partindo do principio, portanto, que a Taxa de Falhas para acidentes muito graves em barragens de rejeito é de 4.7 x 10-4 e aplicando a função densidade de probabilidade, considerando uma distribuição exponencial, temos que a probabilidade de ocorrência do acidente em um ano seria de 0,00047 (4.7 x 10-4) ou 0,047% de probabilidade.
Análise de Risco Quantitativa na Mineração.jpg II
Matriz de Tolerabilidade de Risco Riskope – Financeiro
Observamos no gráfico que para a probabilidade de falha muito grave em uma barragem com derramamento de rejeito associado ao custo conservador adotado de US$ 543 milhões/acidente, o risco se encontra no limiar da aceitabilidade.
Importante destacar que para cada cenário de posicionamento de uma barragem de rejeitos, seu entorno ambiental e social definido na etapa de concepção do projeto, em caso de um acidente de grandes proporções, o impacto financeiro seja ele derivado de todos os custos das ações corretivas necessárias, acrescentando o estrago na imagem e ações da empresa no mercado financeiro, esse valor pode chegar facilmente na casa dos bilhões de dólares.
Portanto, considerando atualmente os dados estatísticos históricos e somente utilizando as probabilidades de um acidente muito grave em barragens de rejeito associado à probabilidade das fatalidades decorrentes desse tipo de acidente e as perdas financeiras prováveis, projetos e instalações de mineração que tem em sua concepção a utilização de barragens de rejeito está correndo sérios riscos. Lembrando que nessa análise não foi avaliada a tolerância ao risco do ponto de vista ambiental e econômico, apenas com relação às fatalidades e as perdas financeiras.
Acredito sinceramente e espero que acidentes como esse último devam realmente mobilizar o mundo da mineração pela busca de alternativas para extração e processamento de minérios de forma a não necessitar de barragens de rejeito. Relembrando uma máxima da aviação: Se você acha caro fazer segurança, experimente um acidente!

Ricardo, 05 de dezembro de 2015.

    • Alice Vasconcelos
    • 16 dezembro, 2015

    Interessante análise! Parabéns Ricardo!

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