DIÁRIO DE LISBOA “ON RETARD”: ENCONTREI MARIA EM FÁTIMA

FÁTIMAEra um domingo de janeiro, frio como todo os demais em Lisboa, o primeiro depois do término dos meus estudos de mestrado e da chegada da minha esposa e de meus compadres para nosso passeio pelas terras lusitanas. Levantamos cedo, tomamos um bom “pequeno almoço” (como dizem os portugueses) no hotel em que estávamos hospedados, pegamos o metrô e fomos para a Rodoviária de Sete Rios. Lá, pegamos um busão, com o diz a moçada da geração Y, rumo a Fátima. Foi uma hora e meia de viagem apreciando as belas paisagens das terras portuguesas. Por volta de meio dia chegamos por lá.
O frio intenso e o vento parece que tinham espantado os romeiros em visita ao Santuário. Alguns poucos gatos pingados se espalhavam pela imensa esplanada. Uma chuvinha fina caia cobrindo de névoas as cabeças e os capuzes de alguns beatos mais ousados que transitavam pelo local. Uma devota de joelhos, seguia fervorosamente atravessando longitudinalmente a longa trilha sinalizada com duas faixas paralelas de branco traçadas no chão até a Capela do Santuário, onde diziam a Santa tinha parecido há muito tempo atrás.
De repente o sino toca e quebra o silêncio chamando os fiéis para rezar na igreja maior. Vários romeiros surgem, como por mágica, de todos os lados, e em fila, seguem para o culto sagrado.
Eu, totalmente imerso em meu espírito de explorador turismático, averso à obrigação catolicística dominical, deixei a esposa e os compadres e me esquivei entre a multidão. De repente, sem saber de onde, uma senhora de aparência sofrida, com com um capuz estilo véu e toda coberta com uma roupa semelhante a um hábito bastante surrado, surge ao meu lado com a mão estendida e com uma fala meio enrolada, pedindo algo que eu não conseguia decifrar. Os romeiros seguiam em frente na fila em direção à missa e pareciam ignorá-la. A princípio também tentei ignorá-la, mas o fato começou a me incomodar. Parei e fiquei olhando, olhando, olhando e o tempo parecia não passar. A cena realmente me absorveu e me incomodava. Não resisti e perguntei a ela o que ela desejava. Da primeira vez, não entendi e pedi para que ela repetisse. Ela repetiu e com muito custo consegui captar que ela queria uns euros para se alimentar. Perguntei o seu nome e ela me disse: MARIA! Minha ficha de repente caiu! UAU!!ENCONTREI MARIA EM FÁTIMA!MARIA II
Meus neurônios entraram em pane! A mulher era MARIA, e estava perto de mim fora dos templos sagrados! Olhei nos seus olhos, seus olhos olharam os meus! Peguei a sua mão e pedi que me acompanhasse. Atravessamos a praça e fomos em direção ao pequeno bairro onde existiam vários locais para se alimentar. Tentei conversar um pouco com ela para saber quem era ela e de onde ela vinha. Com muita dificuldade, entendi que era de um país da Ásia, parece-me que da Croácia e que queria comida para ela e os filhos pequenos que estavam em casa. Fomos caminhando até chegar a um restaurante. Entramos, parecia que todos tinham parado para nos olhar! Paramos em frente ao balcão e perguntei ao garçom o que ele podia servir para ela levar. Ele me disse que poderia providenciar uma boa marmita, bem farta! Pedi a ele para caprichar. Ficamos lado a lado esperando; eu tentei conversar mais com ela, mas era muito difícil entender sua fala. O garçom voltou rápido. Entregou-me uma marmita farta, bastante recheada. Entreguei a ela. Ela pegou, abaixou a cabeça em reverência, agradeceu, virou as costas e foi embora, caminhando bem devagar. Fiquei olhando, olhando, olhando seu caminhar que nunca parecia terminar…

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