UMA MESTRANDA EM DESTAQUE

DIÁRIO DE LISBOA IVHoje tive oportunidade de participar da apresentação de uma tese de mestrado na Universidade. A Banca, ou melhor, o Júri, como dizem os portugueses, era composto por três professores e a sala estava repleta de outros mestrandos, ansiosos por aprender como aquelas coisas funcionavam, até que chegasse o dia de serem testados.
Hora de começar. Momento tenso, difícil de encarar! A mestranda, como uma estátua viva, fixou-se no meio da sala de frente para os avaliadores e, com olhos fixos neles, manteve-se nessa posição durante os intermináveis vinte minutos que se passaram. Utilizava, para apresentar o seu trabalho, de uma apresentação no power point, inundada de letras pequenas formando textos intermináveis. Sua voz era baixa e monótona, sem nenhuma alteração em termos de tom ou velocidade, o rosto impassível. Lia todos os textos de cada slide de forma mecânica, repetindo o que todos já tinham lido logo na primeira visualizada. O horário pós- almoço trouxe um sono que veio chegando devargazinho, apanhando de forma sorrateira e desapercebida alguns dos presentes, menos acautelados. O tempo foi passando, passando e, numa olhada de retaguarda, percebi que, ao fundo, uma colega tinha entregado os pontos, abaixou a cabeça sobre a carteira e saiu do ar. Outro dava umas “pescadas” violentas, abaixando lentamente o pescoço e depois levantando-o bruscamente, numa luta heroica por desvencilhar-se daquele sono inesperado. A cena se repetia sincronizadamente como se tivesse sido ensaiada. Alguns colegas mais espertos, dando uma de malvados, começaram a rir da sua luta inusitada e, com o uso da tecnologia, tiraram fotos. Em seguida, entre risos baixinhos e entrecortados, começaram a compartilhá-las. O Júri começava a impacientar-se. Felizmente, no ápice daquela odisseia, a mestranda conseguiu terminar a sua apresentação e o Júri começou a tecer seus comentários.
Não é a primeira vez que presencio cenas semelhantes a essa: pessoas de talento com belíssimos conteúdos a apresentar que, por falta de habilidade, acabam comprometendo fortemente todo o resultado. O problema é como apresentar. Branco de memória, tremedeira, bambeza nas pernas, boca seca, suor frio, dor no estômago são alguns sintomas que surgem subitamente para complicar. Existem algumas técnicas que podem eliminar esses sintomas e otimizar fortemente os resultados: inteirar-se adequadamente com antecedência sobre o assunto a ser apresentado, fazer uma “colinha”, treinar, utilizar figuras ou palavras chaves, escrever o mínimo possível nos slides e se escrever, utilizar letras grandes de forma a facilitar a leitura do leitor que ali está. Outros aspectos também merecem ser considerados: tomar cuidado com o traje, não se “colar” no assoalho, movimentar-se (sem exagerar) utilizando um movimento de palco adequado, explorar de forma adequada a expressão facial e corporal, o tom e o ritmo de voz, fazer gestos sincronizados e, sobretudo, falar com entusiasmo, com muito entusiasmo. É estritamente necessário demonstrar entusiasmo pelo que se fala. É ter “deus” dentro da gente, resgatando a etmologia da palavra. Pessoas sem entusiasmo são banda sem música, carnaval sem alegria, céu sem estrelas, jardim sem flores.
É possível que, a essa altura, alguns impacientes leitores dessa modesta reflexão arrisquem a me perguntar se, tomar todas essas providencias, farão uma boa apresentação, basta. E eu responderei que não. Além disso tudo, é preciso ainda muito amor, humildade, insistência e prática!
Mas afinal, poderão perguntar-me ainda se a mestranda foi aprovada e eu responderei que, para a felicidade dela e de todos, sim, sem louvores, mas aprovada! Possivelmente os louvores viriam se tivesse utilizado técnicas bem elaboradas…

    • Fatima Maia Dias
    • 8 janeiro, 2015

    Acompanhando o seu diário de Lisboa. Muito bacana. O título de hoje ” Uma Mestranda em Destaque “, acionou a minha curiosidade. Diante da decepção da atuação da mestranda resta-nos absorver as suas dicas para ter um desempenho melhor.

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