CONFRATERNIZAÇÕES DE FINAL DE ANO

charge_patrao_empregadoO final do ano vem chegando e as empresas começam a se preparar para as já tradicionais festas de confraternização com seus empregados. Os buffets se preparam para faturar alto no mercado. Tudo vira festa e a impressão é que empregado e patrão esqueceram os conflitos e as crises e se irmanam num único abraço. E aí surgem certas contradições que deixam alguns observadores mais atentos bastante revoltados. É um bom momento para refletir sobre cultura organizacional e sobre ética no trabalho.

O problema é que algumas empresas ridicularizam este momento, tomando ações antiéticas, levianas e contraditórias. São empresas que durante o ano inteiro abusam de seus empregados e depois se travestem de boazinhas, fazendo deste momento um palco de cenas falsas e totalmente vazias de significado. Para acelerar o processo, o aumento do teor alcoólico estampa flashes de episódios inusitados: diretores alcoolizados fazendo discursos prolixos, vazios e acalorados, supervisores e gerentes, verdadeiros carrascos, extravasando cerveja por todos os lados, abraçam seus subordinados, como se fossem grandes companheiros no ambiente de trabalho. Tudo vira festa! Ali naquele momento, como num passe de mágica, já não mais existe patrão e nem empregado. O problema é que no outro dia, a amnésia parece ser geral! Uma ressaca infernal toma conta de todo mundo e o patrão vira de novo o bicho-papão que devora o assalariado.

Conheci uma empresa que promoveu uma festa fantástica: faixas com frases bonitas no portão de entrada, chopp à vontade, abraços e risadas escancaradas, sorteios de brindes, cheques e churrascada. Na segunda feira, logo depois da “fuapa”, houve uma demissão em massa, mandando para a rua da amargura a maioria da peãozada. Em outra empresa, como Gerente de RH, abri um processo de licitação para contratação de uma organização credenciada para realizar o evento. No final de um longo processo, com uma organização escolhida e já preparada, surge uma ordem radical para suspender o processo de forma imediata. O diretor-presidente tinha contratado a própria filha, inexperiente e dona de uma floricultura, para realizar a empreitada. O preço, como não poderia deixar de ser, foi uma fortuna, tudo em nome da locupletação familiar! Na noite de gala, o diretor-presidente, embevecido pelo poder, fez um longo e prolixo discurso, recebendo aplausos acalorados! Ninguém entendeu nada! Alguns dias depois foi um rolo danado para arrumar notas frias para prestar contas das mercadorias e dos wiskies contrabandeados…

Os exemplos são provocativos e propícios para repensar o jeito brasileiro de administrar. A cultura do “pão e circo” tem que terminar.  Antes de pensarmos em festas, precisamos rever as formas de gerenciar. Como anda o relacionamento interpessoal no dia a dia de trabalho? Existe um sistema justo de reconhecimento pelo desempenho do assalariado? O valor e a forma de remuneração são compatíveis e adequados? Existe um plano de benefícios que reconhece e tranqüiliza os empregados? Treinamento e desenvolvimento, segurança e meio-ambiente são partes de uma política sustentável? E os acidentes de trabalho; a empresa é uma fábrica de óbitos e mutilados?

Festas de confraternização têm um justo e eficaz significado; é o momento de celebrar, isto é, tornar célebre as vitórias conquistadas durante um ano inteiro de trabalho harmonioso e respeitado. É o momento de demonstrar reconhecimento de maneira coerente, espontânea e sincera pela dedicação dos empregados. O evento bem estruturado funciona como uma forma de combustível mantendo-os mais motivados. É o ápice, o resultado de um processo permanente, coerente e natural de crescimento e valorização do ambiente de trabalho. Portanto, não vale ser ignorante e desrespeitoso durante o ano inteiro e durante a festa abraçar sorridentes os empregados, não vale promover campanha contra o alcoolismo durante o ano e depois diretor se acidentar dirigindo embriagado, não vale sortear cheques e depois demitir em massa, não vale pregar ética e depois servir whisky contrabandeado!

O grupo de pagode, o chopp, os abraços, o almoço, o churrasco, a palavra do diretor-presidente são importantes e muitas vezes necessários, mas ingredientes imprescindíveis como coerência, ética, princípios, valores não podem em hipótese alguma serem esquecidos e renegados.

    • Daniela Guimarães
    • 16 novembro, 2009

    Este artigo sobre as confraternizações em empresas é muito interessante, pois coloca em evidência desconfortos e realidades que transformam algo que deveria ser positivo, em uma ação negativa.
    Nestas, os chefes carrascos se revestem em pele de cordeiro, achando que tal atitude irá apagar em nossa memória o que fizeram.
    Já presenciei empresas que “não tinham” verba para qualquer beneficio ao colaborador, mas para a festa sim.
    Por estes e outros motivos não participo destas e sugiro aos empregadores que presenteie seus colaboradores com outros itens, pois certamente irão usufruir bem mais do que a festa de “confraternização”.

  1. No trackbacks yet.

Deixe uma resposta

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s

%d blogueiros gostam disto: