MEU DEBUT NO MUNDO TRABALHO

MUNDO DO TRABALHO “A adversidade é um trampolim para a maturidade”.

(C.C. Colton)

 

 

 Eu mal tinha acabado de completar dezoito anos, a situação financeira da minha família era precária, meu pai tinha um monte de dívidas para pagar. Eu tinha urgentemente que dar um jeito de trabalhar. Uma vontade enorme de deixar de ser menino e tornar-me homem imperava, barbicha e bigode ralos espalhavam-se pela minha cara.

Era a década de 70, eu, Técnico de Mineração, diploma fresquinho na mão, na época um verdadeiro troféu, quase que uma sagração! De repente apareceu um emprego, uma oportunidade de trabalho! Meu coração disparava, a respiração ofegava, era tudo que eu precisava!Nunca tinha entrado em uma fábrica, a escola não ensinava. Fui encaminhado ao Chefe de Pessoal e depois para o exame médico admissional. Em seguida deram-me um uniforme, um par de botas com biqueira de aço, um capacete, um crachá, o famoso cartão de ponto e disseram-me para, no mesmo dia, apanhar um ônibus às onze da noite em frente à praça central da cidade. O “busão” me conduziria para o meu “debut” que teria início à meia-noite daquele mesmo dia, na minha primeira jornada de trabalho!

Voltei para casa com a bagagem que tinham me doado e aguardei ansiosamente a noite que se aproximava. E ela chegou, fria e nublada. Vesti o uniforme, calcei a bota, coloquei o capacete na cabeça, prendi o crachá no peito e, todo orgulhoso, com mais de uma hora de antecedência, saí pela rua com aquela fantasia estranha, rumo ao meu primeiro dia de trabalho! Era junho, o frio cortante penetrava pela jaqueta “far-west” surrada vestida sobre a camisa de uniforme e provocava-me pequenos arrepios, difíceis de controlar.

Depois de uma longa espera, vagarosamente um ônibus estranho e sujo, contornou a esquina e parou na minha frente. A porta se abriu e eu, meio inseguro, entrei, sem saber direito se esse era mesmo o ônibus que eu tinha que pegar.

-Quem é você? Disparou o motorista, de maneira brusca, logo de cara.

Limpei bem a garganta e tentando fazer a voz soar grossa, meio temeroso, respondi:

-Sou o novo Técnico de Mineração que foi contratado!  

-Simboooora motóóóóra! Olha a hooooora! gritou de dentro do ônibus, lá atrás, a peãozada!

Levei um susto danado!

-Não é este o seu ônibus, este é de peão. O seu é o outro que já vem atrás. Pode descer! retornou o motorista, meio agoniado.

Sem entender muito bem, desci do ônibus e retornei ao meu posto de espera, na beira da calçada. Mal tinha acabado de me posicionar, o motorista arrancou bruscamente o ônibus e desapareceu ao longo da rua mal iluminada.

Fiquei por ali, apreensivo, por mais alguns instantes, aguardando, meio com medo daquela peãozada.

Outro ônibus apareceu e estacionou ao meu lado. Este sim era um ônibus limpo e novo, “rodoviário”, com bancos altos e estofados. O motorista abriu a porta e eu novamente entrei, ainda meio assustado.

-Quem é você? Perguntou-me novamente o motorista.

Afiei a garganta novamente e respondi rápido:

-Sou o novo Técnico de Mineração que foi contratado!

-Pode entrar! respondeu secamente o motorista.

Antes que eu pudesse me localizar, arrancou bruscamente o ônibus e quase cai para o lado!

Pouco a pouco minhas pupilas foram se dilatando e a visão se acostumando à escuridão interna daquele veículo fantasma. Uma meia dúzia de pessoas, aqui e acolá, dormia escornada no meio de um monte de poltronas, todas desocupadas! Sentei-me rapidamente na primeira vazia que consegui identificar. Os pensamentos surgiam aos borbotões, o medo e a ansiedade me dominavam! No meio daquela escuridão, na minha cabeça pensamentos mil tentavam adivinhar onde eu iria parar!

Em pouco tempo as luzes da cidade ficaram para trás e o ônibus ganhou a estrada. Era uma estrada cheia de curvas e esburacada. Entre pensamentos e balanços, o sono começou a me dominar e, apesar de tentar resistir, comecei a dormitar.

De repente acordei assustado! Uma figura forte e fardada, com um trabuco enfiado na cintura e um cacetete enorme amarrado  apareceu como um fantasma ao meu lado:

-Quem é você? Cadê seu crachá? disparou a pergunta de forma apressada, acordando-me com um balançado.

Não sabia direito se estava tendo um pesadelo ou se já tinha acordado. Na dúvida, lembrei-me do crachá. Rapidamente tirei-o do peito e apresentei-o ao “soldado”. Deu uma olhada, devolveu-o a mim, virou as costas e sumiu pelo corredor do ônibus, retornando ao seu posto de trabalho. Pela janela do ônibus, na escuridão pude vê-lo entrando em um barraco feio e mal cuidado. Deduzi que aquilo deveria ser a portaria, estava chegando na empresa para início da minha jornada.

O ônibus arrancou e seguiu em frente, parando por diversos pontos despejando os poucos “gatos pingados”. Comecei a entrar em pânico, minha situação não era boa, eu não sabia onde eu tinha que parar. Levantei-me, aproximei-me do motorista e perguntei a ele se poderia me ajudar.

-É o último ponto, pode aguardar! respondeu-me de imediato.

Sentei-me novamente e, ansiosamente, pus-me a esperar. Depois de algum tempo, o ônibus parou de frente a um galpão e a um prédio, ambos enormes, com vários andares. Só tinha eu dentro do ônibus, meus companheiros de viagem já tinham apeado. O motorista abriu a porta e disse-me que tinha chegado. Meio hesitante, desci, tentando me situar

Uma fila enorme de empregados serpenteava pelo pátio da fábrica. Raciocinei que era por ali que eu devia entrar. Meio inseguro, postei-me atrás do último personagem. Pouco a pouco, mais ônibus chegavam e um monte de outros personagens, atrás de mim se perfilavam. Um a um, no início da fila, aproximavam-se de um estranho relógio, inseriam o cartão de ponto em uma cavidade, apertavam uma alavanca que fazia um barulho metálico, retiravam o cartão, colocavam-no em um pequeno suporte e desapareciam misteriosamente para dentro da fábrica.

Fiquei observando atentamente como eles faziam aquele ritual para ver se aprendia até chegar a minha hora. Quando dei por mim, minha hora já tinha chegado! Deparei-me assustado em frente àquele equipamento estranho, extraplanetário. Olhei para o meu cartão, olhei para o relógio e nada! Deu um branco, não sabia o que fazer! A peãozada de traz começou uma gritaiada:

-Olha o horal! Sorta a franga! Desagaaaarra!

Entrei em pânico, não conseguia raciocinar!

Subitamente um camarada que nunca tinha visto apareceu ao meu lado. Pegou o cartão da minha mão, inseriu-o na cavidade, apertou a alavanca de barulho metálico, devolveu-o a mim e, como os demais, desapareceu misteriosamente para dentro da fábrica.

Em poucos instantes fiquei sozinho no meio do pátio. A fila e o monte de gente tinham, como em um passe de mágica, se evaporados, cada um para o seu lado.

Tentei resgatar algumas informações que o Chefe de Pessoal tinha me passado, mas era muito difícil, estava assustado com aquele ambiente inusitado, meu raciocínio estava embolado. Procurei por alguém que pudesse me informar como chegar ao meu local de trabalho. Um indivíduo uniformizado apareceu, apontou para cima e disse-me que era para lá que eu deveria me direcionar. Olhei para cima, lá no alto uma sala bem bonita, com visão panorâmica para a fábrica, parecia me aguardar. Comecei então a subir um monte de escadas e plataformas, numa verdadeira escalada. Depois da exaustiva empreitada, ofegante, uma última escadinha de marinheiro me conduziu ao pico do meu himalaia. A parede envidraçada separava-me dos personagens dentro da sala, o suor escorria-me pela cara. O barulho dos equipamentos funcionando deixava-me surdo e meio desorientado. Um pozinho fino de minério deixava minha pele suada, toda encebada. Bati no vidro de uma das janelas em forma de báscula. Bati uma, bati duas, bati três, bati quatro e nada! Quem estava lá dentro parecia não escutar. Depois de algum tempo, um indivíduo lá de dentro veio meio “enchouriçado”. Abriu a báscula na minha cara e com a mão em concha próxima ao ouvido, esticou o pescoço para tentar ouvir o que eu falava. Gritei, para ver se ele conseguia me escutar:

-Sou o novo Técnico e quero entrar. Hoje é meu primeiro dia de trabalho!

-Ô babaca, a entrada é lá por baixo! Aqui não tem jeito de entrar! respondeu-me irado.

Fechou bruscamente a báscula e voltou apressado para o interior da sala.

Eu era um babaca! Na minha tenra idade, senti vontade de chorar! Olhei para baixo, a escadinha de marinheiro, as plataformas e as demais escadas, friamente me aguardavam! Desci transtornado!

Suado e cansado, depois de descer todas as escadas, cheguei novamente ao pátio e procurei me reorientar. Um sujeito forte e barbudo mostrou-me uma portinha estreita, situada na base do primeiro andar. Era uma porta pesada e de aço. Caminhei até ela, abri, entrei, passei por um estreito corredor e novamente comecei a subir um monte de escadas! E eram muitas escadas!

Ofegante, finalmente cheguei à bem-aventurada sala! Era uma sala enorme, envidraçada, bem iluminada, com um monte de luzes, botões, painéis e alarmes piscando em um jogo de cores e luzes diversificado! Um pequeno grupo de pessoas trabalhava, alguns atendiam telefone, outros conversavam.

Subitamente todos pararam e olharam para mim. Senti-me um ET, uma figura rara. Meio constrangido, tentei balbuciar algumas palavras. Antes que terminasse, apontaram para mim e explodiram todos em uma uníssona e cortante gargalhada! O babaca da vidraça tinha conseguido chegar na sala!

Fiquei ali parado, por alguns instantes que mais pareceram uma eternidade. Era o começo de uma longa história que eu não tinha nenhuma idéia de como iria terminar.

 

Foi minha primeira vez, meu primeiro dia como operário!

Bem-vindo ao mundo de trabalho!…

 

 

BH, março de 2007

 

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