MUDANÇAS NECESSÁRIAS

 

MUDANÇAS“Nas organizações humanas não haverá mudanças, a não ser que haja quem advogue estas mudanças”…

A frase é de Joseph Juran, o pai da revolução da qualidade no Japão e tem aplicações práticas nas definições estratégicas das organizações modernas.

A administração do processo de mudanças parte da premissa fundamental da existência de visão, de habilidades, incentivos, recursos e um plano de ação bem estruturado. A inexistência de qualquer um desses fatores leva a empreitada ao fracasso. A falta de visão leva à confusão, a falta de habilidades à ansiedade, a falta de incentivos à morosidade, a de recursos à frustração e, finalmente, a falta de um plano de ação, à indecisão. Mas realmente a base que sustenta todo um processo de mudança está no comprometimento da alta direção de uma organização; um comprometimento sério, focado nas pessoas que são o principal patrimônio da organização. Sem esse comprometimento, o processo de mudança definitivamente não acontecerá.

Um planejamento estratégico de gestão de pessoas bem estruturado começa pela definição clara da visão, missão, princípios e valores da organização. A falácia pode começar por aí. Existe um monte de organizações que tem essas premissas estampadas em letras garrafais na intranet, nos quadros e nas paredes de seus escritórios, no entanto a essência não está internalizada pela alta direção e muito menos pela grande maioria de seus empregados. Conheci uma empresa em que a missão e a visão foram escolhidas através de concurso, onde os empregados apresentaram um monte de frases desconexas e a direção escolheu a melhor. Resultado: mero concurso de frases, confusão! Quando perguntados, os empregados não sabiam repetir um único vocábulo que seja, não sabiam a direção a seguir, não conheciam se quer um único valor da organização. Trabalhei em outra organização que tinha esses mesmos quadros belissimamente estampados na parede do hall de entrada e era certificada por um desses famosos órgãos certificadores. Todos os meses o percentual de refugo de peças com problema e necessitando de retrabalho chegava a quarenta e cinco por cento! De uma noite para o dia, sem nenhum escrúpulo ou estratégia, o “big boss” demitiu trinta por cento do quadro de pessoal! O órgão certificador fez uma auditoria de verificação e confirmou a certificação; a papelada com suas respectivas anotações estava perfeitamente correta e devidamente arquivada! Palmas para a equipe da qualidade!?…

Pergunto-me: até quando as organizações vão continuar brincando de gerir pessoas? Até quando a visão obsessiva de foco no produto e a conquista de cifrões vão sufocar as necessidades humanas que constroem a base de uma organização sólida. A Hierarquia das Necessidades de Maslow ficou esquecida nos bancos das faculdades! Não se atende nem as necessidades fisiológicas, quanto mais as de caráter mais elevado. No alto da pirâmide a auto-estima e a auto-realização ficaram ofuscadas, apagadas pelo brilho fulgurante da imagem do cifrão!

“Já matamos um e só não morreu outro por que Deus ajudou” Essa frase proferida em alto e bom tom por um diretor de empresa após um acidente de trabalho fatal deixou-me estarrecido! Como gerir pessoas nesses tipos de organização? O que fazer para sensibilizar os donos do poder que seu maior patrimônio não são as máquinas e os equipamentos que valem milhões, mas os talentos humanos que são responsáveis por esses e os fazem funcionar?  Como sensibilizá-los para o valor de uma vida humana? Como convencê-los que é uma questão de gestão, não divina e que Deus não tem nada a ver com essa incompetência descontrolada!  

“Já demitimos um monte e se for necessário demitimos mais, o que importa é atingirmos a meta de produtividade”, está frase está embutida no subconsciente de um monte de capitalistas selvagens; os índices de turn-over e desemprego estão aí para comprovar. Os acionistas e as bolsas de valores falam mais alto!

Vem me à lembrança o Professor Falconi, com seus belíssimos discursos em prol da gestão pela qualidade total:

Reter as pessoas nos quadros da empresa de tal forma que a empresa faça parte do projeto de vida de cada um”…

“Criar condições para que cada empregado tenha orgulho de sua empresa e um forte desejo de lutar pelo seu futuro diante de quaisquer dificuldades”…

“Transformar operadores de máquinas em fabricantes de riquezas!…

É uma grande pena! Existe um enorme abismo entre a teoria e a realidade! Os profissionais da área de gestão de pessoas tem um desafio gigantesco a conquistar. Não basta somente recrutar e selecionar. Não basta somente pagar corretamente dentro da data prefixada em lei, o chefe de pessoal está completamente ultrapassado! Não basta colocar os empregados numa salinha e ensinar o beabá de como operar uma máquina ou preencher um formulário! Não basta dar pão e circo criando um paternalismo exarcebado! É preciso mais, é preciso muito mais! É preciso que haja mudança, o ser humano tem que ser verdadeiramente focado! A alta direção das organizações tem que advogar essa causa ou, mais cedo ou mais tarde, estará fadada ao fracasso; o tão desejado lucro se tornará uma quimera, nunca será alcançado com verdadeira sustentabilidade!

 

 

Júlio César Vasconcelos – Abril de 2007

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